| TRANSIÇÃO |
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Foto obtida no Flickr através de uma licença Creative Commons, cujo autor é pedroprio
É uma noite umbrosa a vomitar sensações ímpares, Seguida de uma madrugada de distinta singularidade, Daquelas que todos os seres obscuros parecem sair De uma só vez, se atropelando e rosnando desvairados, Na pressa para se refestelarem do seu cotidiano de trevas – Em que se acentua a distinção entre presa e predador.
Mas não é o externo que me incomoda, tampouco a noite, Visto que, por mais intenso que seja o negrume exterior, Após certo tempo e adaptação, vem o cinza substituí-lo. Há uma escuridão maior... Uma imaculada indiferença, Que transforma o todo em nada e faz do simples existir Algo indizivelmente sem sentido.
É nesta incólume e crescente abstração, que sou flagrado Pelos primeiros raios dilúculos, que despontam atrevidos E tingem o céu de um inexpressivo prata pálido-opaco. Meu corpo imóvel faz parceria com os olhos arregalados, Porém, não denuncia a sôfrega busca interna por algo Que possa fazer algum sentido nestes recantos invisíveis.
O frescor matutino é indiferente ao meu interior, Que, gélido, permanece apático, plácido e imutável Neste inóspito limbo vazio, aparentemente infinito. Seria de me assombrar – se eu ainda possuísse tal dom –, Pois os intangíveis fantasmas que habitam este éter, São inúmeros e inominavelmente abomináveis.
Meus olhos secos e escancarados vêem o céu prata, que – Através da porta aberta – já acentua um brilho azulado, Tal qual se polido por zelosas mãos invisíveis. Mas inexplicavelmente continuo cego para a beleza, Como se algo vindo de não-sei-onde neste vazio imenso, Mantivesse meu coração aquietado nas sombras.
Da minha anestesiada visão de vegetativa placidez, Já não importa se a fruta é doce ou ácida, se sou bom ou mau Ou se fiz amor na noite passada... É irrelevante se ouvirão o Greenpeace, se ar e água vão acabar, E se sou protagonista ou o coadjuvante condenado Daquele filme aterrorizante baseado em King.
Esforço-me para sorrir e tento tirar a manhã para dançar, Mas meu sorriso é uma alva máscara de dura porcelana, Que não mais poderá convencer nada e nem ninguém. E ela – a dama de prata-azulada – me desdenha e ignora, Condenando-me sumariamente ao escárnio de ser para sempre O insignificante e desajeitado feio do baile.
Eu já li, ouvi, acreditei e por mais de uma vez disse que Depois da chuva vem o sol e depois da dor vem o sorriso... Mas, por quê tais frases me parecem tão vagas agora? Mesmo a manhã – que deveria ser linda após horas umbrosas – Em nada parece especial; ao menos não a este ser que – Já não sei quanto tempo – não mais se mexe ou respira.
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Publicado no livro Corpo e alma em verso e prosa:
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