| REQUIÉM |
|
Você também pode escutar este poema clicando aqui
Foto obtida no Flickr através de uma licença Creative Commons, cujo autor é newtonapple
Do limbo que o aprisiona, não pode retornar, ou interferir. Foi-lhe concedido apenas um rápido vislumbre da amada E da solidão obscura da alcova suntuosa, onde ela agoniza, Tendo – além dele – o desespero como única testemunha.
No sepulcro em vida do seu sombrio e gélido aposento, Ela chora a transição da inocência à execrável mundividência, E chora a atroz intolerância daquele que lhe dera o sangue. Ela chora apenas para si e as paredes frias... Chora por ele.
Da sua inusitada condição de impotente espectador, Atravessa-lhe resquícios tênues de memórias antigas, Que em outras paragens longínquas, em eras ancestrais, Acontecimentos idênticos já lhes incutiram tais tormentos.
E sua distinta memória rasga o etéreo fluxo das existências, Retornando ao presente, em que seus sentidos atribulados Agonizam sob o efeito das sublimes lembranças recentes Que torturam sua alma, com o peso esmagador da culpa...
O farfalhar suave das vestes de seda dela correndo pelo trigal Constituía o excelso coral para os risos joviais que brotavam Espontâneos e despretensiosos dos ternos lábios virginais; Uma doce música para o célere coração do jovem camponês.
Ele, concebido e criado na rústica simplicidade do campo, Não fora apresentado aos costumes podres da sociedade, Ou maculado pela suntuosidade e desfaçatez dos homens, Tampouco castrado pelo jugo da hipócrita clerezia dominante.
Ela nascera na realeza e crescera em meio à cultura e abastança, Mas tal brasão tinha para si a frieza das pedras nuas das paredes. Seu coração impetuoso a remetia às carícias doces da liberdade, E a alma inquieta recusava-se a aceitar o cárcere do patronímico.
Ali, em meio àquele imenso paraíso ondulante de folhas e hastes, Em que os longos cabelos de ouro se mesclavam ao dourado Dos cachos fartos, cuja madureza esperava a abundante colheita, A elitista casta nobre não se diferenciava da origem humilde.
E a liberdade de correr a esmo pelos vastos prados dourados, Só se equiparava as longas horas deitados na relva esmeralda, Às margens do sinuoso riacho de belos sussurros cristalinos, Onde ela – oferecendo o colo gentil – recitava poesias para ele.
À fresca e aconchegante sombra do frondoso carvalho predileto, Os jovens se esqueciam do tempo e da vida além de seu oásis; Interessava-lhes apenas aquele sentir, que queimava sem doer... Que culminava suas almas e abastava seus inquietos corações.
Entre as flores primaveris, os pássaros saudavam em cantoria... As borboletas multicores voavam aleatórias na margem úmida... A relva viçosa acariciava o bronzeado dele e a singela alvura dela... E a natureza cúmplice regozijava com as sinceras juras angelicais.
Os elementos e as divindades brindavam o triunfo da felicidade, Quando a inocência foi brutalmente ceifada pela espada intolerante. E, naquela tarde de terror, o próprio sol – incrédulo – se escondeu, Deixando o coração da amada sob o perpétuo domínio das trevas.
O silêncio sepulcral impede que seus brados rasguem a barreira Para dizer a ela que está bem, que a ama e a esperará eternamente. Também ela não poderá saber que sempre haverá uma nova chance... E, na penúria, jamais terá ciência que apenas seu amor pode libertá-lo.
|
![]()
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.