| MORTO |
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Foto obtida no Flickr através de uma licença Creative Commons, cujo autor é Larsz
Aconteceu há muitos anos já, Quando um homem errava, ali e lá, Exercendo seu livre arbítrio. Padecia a dor de um amor recente, E em tal condição, carente, Buscava um bálsamo, o alívio.
Deu-se num lugar encantado, Berço de um povo educado, Um oásis na natureza. Tanto o povo que ali habitava, Quanto o verde que a tudo abraçava, Exalava vida e beleza.
Ali, várias amizades conquistou, Superando as que deixou, Nas suas longínquas e difusas andanças. Não obstante, um presente inusitado, A mulher, a amante, anjo adorado, Dali a sempre senhora das suas lembranças.
A primeira, já “falecida”, Lúgubre ilusão, logo esquecida; Enfim findavam insuportáveis dores. A nova paixão fez-se presente, Inebriando coração e mente, O maior, o mais ingente dos amores.
O corpo, altar da deusa venerada, O sexo, desvario, fêmea encantada, A mais portentosa paixão. A alma, nobre, pura divindade. A mente, intelecto, sagacidade, O cerne da admiração.
A vida seguiu seu rumo, O homem, o amante, no prumo, Dono das essenciais faculdades. A mulher, amada e seleta, Por anos prosseguiu reta, Difundindo a felicidade.
O homem inquieto, andante, Buscou obtuso, ignorante, A fuga do enfadonho, da rotina. Sucumbiu ao primeiro ensejo, Comboiando errôneo desejo, Principiando a própria ruína.
A amada, enfim, combalida, Exposta às mazelas de tal vida, Por outro se encantou. O demônio disse ser destino, Fosse ou não, desatino, A sublime relação findou.
O homem, volvido na boemia, Nem estranho, nem amigo ouvia, Entregue à degradação. Perambulou por horas tardias, Decidido findar seus dias, Na madrugada, um estampido, solidão...
Onde a alma apodrece, não há tempo ou espaço, Voa, rasteja, insensível à dor, sem embaraço; Exceto o escárnio do demônio, nada há, então! Ali o dia é negro, a noite é eterna, perene, Na insânia, o homem gargalha, o verme geme; Na longínqua lembrança, negrume, desolação.
Se permitisse uma luz, um vislumbre... Ah, doce “eva”! À mui amada, um breve “oi”, então a volta às trevas, Contudo, nada é lícito no limbo escuro, ignoto. Hilário no purgatório, embora eu nada pedisse, O demônio peremptório, certa vez me disse: “Tu és esse homem, e há tempos, jaz morto.”
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Publicado na antologia internacional Margens do Atlântico
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