Apresentação

      JULGAMENTO
 

Você também pode escutar este poema clicando aqui

Foto obtida no Flickr através de uma licença Creative Commons, cujo autor é Orin Optiglot

 

Cavalheiros bem nascidos,

Que observam, ouvem, opinam

E estão a me julgar.

Saibam, jamais lhes implorarei perdão,

Portanto, cumpram teus vis esforços.

 

Se a pena é a máxima, capital,

Que então me condenem e cumpram,

Dela não anseio esquivar.

Que minha idolatrada o execute , então,

Desprovida de preâmbulos ou remorsos.

 

Fosse eu um cristão bem criado,

Que obedecesse a leis que não as minhas,

Rogaria somente a ela, meu grande amor perdoar.

Por com tua permissão, minha sorrateira invasão,

Naquela, a mais escura das noites.

 

A paixão me rasgava o peito

E o desejo se fez mais forte,

Culminando no ensejo desprezar.

E por tal irracional “razão”,

Que venha da musa, antes da morte, o açoite!

 

Ó amada e bela, usei o escancaro da janela,

Que conduzia a fresca brisa noturna,

Para em teu pulcro quarto enveredar.

Ainda que sem noção, fui grato ao calor da estação,

Pela sensualidade que tua pele semi-nua exalava.

 

Ali você estava, na confortável cama estendida,

Belíssima, ó maravilha, lindamente adormecida,

No ávido esfalfamento de me esperar.

E, agraciado por sublime e terna visão,

Não havia volta, não mais, meu fôlego quase parava.

 

Uma mecha dos sedosos cabelos loiros –

Fios de ouro – adornava tua linda face

E explanava belos sonhos, jardins nus a desbravar.

Tocara irreversivelmente meu devoto coração,

Que, tal embevecido, perdeu de vez a coerência.

 

Embriagado pelo doce perfume e esguias curvas –

Pele sob tecido, seda sob seda –, o incontrolável ardor

Fez desvanecer a nobre intenção de idolatria sem tocar.

Com amor, fizemos amor, na mais excelsa devoção,

E com paixão correspondida, rescindi tua inocência.

 

Agora, neste execrável julgamento,

Em meio a seres além-mundo de sentimentos,

Sou julgado por bem querer, por muito me encantar.

Gritos coléricos pedem sumária condenação,

Mas, desdenho, por nenhum vir de ti, ó divina.

 

Que eu seja aqui e agora castigado,

E se amar é pecado, também no inferno pagarei...

Nada além importa, pois no gozo, tu jurou me amar.

Ó minha amada, que se entregou de alma e coração,

Na ânsia de voltar te peço, então, que aciones tu,

Esta histriônica guilhotina.

 

______________________________________

 

Publicado na antologia internacional Margens do Atlântico

 

 

 Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.