| O ESPORTE ADAPTADO NA MINHA VIDA |
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Na verdade a bocha adaptada entrou na minha vida meio que por acaso. Em 2002, o campeonato brasileiro foi aqui em Uberlândia e, Daniele – uma amiga muito querida – convidou-me para vê-la competir nesse esporte, que até então eu sequer tinha ouvido falar. Por motivos, agora irrelevantes, não pude ir assistir a nenhum dos três dias de competição e, quando fui me desculpar, notei que minha amiga estava numa empolgadura só. O tempo foi passando e ela não parava de falar no tal bocha. Eu continuava indiferente, com a cara enfiada nos livros e no computador – ler e escrever são minhas paixões –, até que Daniele disse ter falado a meu respeito com a treinadora – uma profissional muito competente por sinal – e essa manifestara o interesse de me conhecer. Certa feita, já em 2003, finalmente me decidi e acompanhei minha amiga até a APARU – Associação dos Paraplégicos de Uberlândia –, onde ela treinava com outros atletas. Naquela tarde assisti aos treinos e até participei de duas ou três partidas, mas, ainda assim, não obtive grande empolgação e não estava convencido a praticar o esporte. No entanto, chegou aos meus ouvidos que o campeonato brasileiro daquele ano estava se aproximando e seria em Petrópolis. Aquilo sim, me chamou a atenção, pois viajar é outra de minhas paixões – sou um homem de muitas paixões (risos). Egoisticamente visando mais a viajem do que a competição em si, comecei a participar dos treinos. Esses eram realizados nas segundas e quartas – posteriormente também seriam nas sextas –, mas, por motivos pessoais, eu só o fazia nas segundas. Chegado o dia do inicio da competição, fiquei literalmente boquiaberto com a organização da mesma. Também me impressionaram muito a quantidade de delegações – procedentes de várias regiões do país –, a qualidade dos atletas e a seriedade com que eles encaravam o esporte. Senti vergonha pelo meu egoísmo, pois não merecia estar ali, como um deles; mas, já que estava, faria da melhor forma possível o que todos faziam tão bem. Logo depois da rígida classificação – como esperado, fui classificado para a classe BC4 –, joguei a primeira partida oficial da minha vida. De imediato fui invadido por uma inédita sensação de fazer parte de algo maior, de um grupo de pessoas que conseguiam ir além dos limites impostos pela paralisia. Era realmente uma grande emoção e, a cada partida que disputava – ganhando ou perdendo –, aquele sentimento maravilhoso aumentava. Realmente não lembrava de já ter sentido algo daquela proporção, nem mesmo quando disputava campeonatos de futebol, na minha inquieta adolescência. Embora os atletas com os quais competi fossem – na maioria – experientes, ainda consegui um significativo 4º lugar nas provas individuais e uma reluzente medalha de bronze na competição em duplas. Meus companheiros não ficaram atrás e nossa equipe alcançou o 3º lugar geral. Para um novato, que quase não treinava, aqueles resultados foram fantásticos, sobretudo levando em conta o altíssimo nível dos adversários. Percebi, então, que era possível competir de igual para igual e valia a pena investir nos treinos. Não obstante, mais que qualquer coisa, valeu a lição que aprendi: O esporte adaptado em geral não é apenas competição, mas a integração entre os deficientes, a conquista de grandes amizades e um grande sentimento de realização pessoal. Em particular o bocha – por ser praticado por atletas com lesões e comprometimentos severos –, mais que os outros esportes adaptados, é um perfeito canal de integração. A extrema dependência dos atletas cria vínculos singulares, traduzido num belíssimo sentimento de solidariedade e respeito mútuo, que vai muito além do prazer da competição.
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