| DESCASO |
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“Outro dia ouvi uma pergunta interessante: Por que as pessoas criam tantas barreiras para os deficientes? A resposta, embora longa, é muito simples: É que no geral as pessoas não se importam mais com as outras como pessoas, mas apenas com o ganho ou perda que esses possam lhes proporcionar ou não. Perante a atual concorrência estabanada do mundo globalizado, o ser humano perdeu seu valor como ser humano e o lucro tomou o primeiro lugar no podium da vida. Assim, os comerciantes e profissionais liberais não se preocupam em colocar rampas de acesso nos seus estabelecimentos, pois isso implica gastos e seus clientes deficientes são ocasionais e, por serem minoria, pouco lucrativos; embora os impostos e taxas sejam iguais para todos, as prefeituras e outros órgãos públicos, ao invés de adaptarem as calçadas – em alguns poucos lugares já estão tendo essa consciência –, fazem pequenas valetas de escoamento pluvial que os cadeirantes de comprometimento motor mais severo não podem ultrapassar sozinhos; os próprios cidadãos constroem calçadas desniveladas umas das outras, se preocupando com a estética e ignorando o bom-senso, sem ao menos se darem ao trabalho de pensar que tais atitudes boicotam o direito de ir e vir dos cadeirantes, idosos e outros; muitas pessoas, quando se interessam por algo relativo ao deficiente, ignoram-no e se dirigem ao acompanhante, como se o problema físico o tornasse incapaz de responder por si mesmo. E o pior de ações como essa é que a própria sutileza as fazem passar despercebidas, exceto para aqueles que são ignorados. Não obstante, nem fazem tais coisas por mal, mas por pura ignorância. A meu ver, é o conhecimento que desfaz equívocos e derruba barreiras, mas as pessoas andam tão assoberbadas na sua luta desenfreada para adquirirem bens materiais que não encontram tempo para a aprendizagem do mais importante: o espiritual. Ou até mesmo acham esse obsoleto e aquém do essencial. ‘Para aprender a se levantar, antes é preciso cair’, é um fato. Ou seja, em geral, as pessoas só aprendem por experiência própria. O problema é que a grande maioria não chega a ter experiências para aprender com elas. Em casos isolados, alguns se dão à chance de aprender com os outros e quando interagem descobrem as suas próprias limitações, pois de um modo ou de outro e em graus maiores ou menores, todos os seres as possuem. Essas descobertas são necessárias para exercitar a humildade e mostrar que, na essência, todas as pessoas são iguais, mas principalmente evidenciam o potencial do outro, valorizando-o como ser humano pensante e possuidor de direitos e deveres que deveriam ser universais. Quando os homens se unirem em nome do amor, haverá respeito aos semelhantes e todas as barreiras, arquitetônicas e morais, físicas e espirituais deixarão de existir. Expressando desta forma, parece utopia, mas acredito no potencial para o bem que os seres humanos possuem e no dia em que farão uso deste, merecendo verdadeiramente o privilégio de – como dizem – terem sido concebidos à imagem de Deus e o primeiro lugar na cadeia evolutiva”.
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