| VIII CAMPEONATO BRASILEIRO DE BOCHA 2006 - RIO DE JANEIRO/RJ |
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Não se pode dizer que a equipe de bocha de Uberlândia estava preparada para o Campeonato Brasileiro que se realizou no Rio de Janeiro, de 10 a 14 de maio de 2006. Embora tenhamos tido um desempenho brilhante no Regional Centro-oeste – classificando para o brasileiro sete dos nossos oito atletas –, no mês que se seguiu até os jogos no Rio, passamos por muitas agruras e pressões psicológicas. E é sabido que para qualquer pessoa ter bom desempenho, em qualquer coisa que seja – sobretudo num esporte de concentração como o bocha –, tem que estar preparada psicologicamente. Para começar, o mês pré-campeonato foi de total incerteza se iríamos ou não ao Rio, com a Silvania Freitas – nossa coordenadora – numa verdadeira maratona em busca de patrocínio, e só conseguimos transporte três dias antes da competição. Aliás, têm sido assim a pelo menos quatro anos; e não estou equivocado ao afirmar que os atletas continuam treinando e competindo por puro amor ao esporte, uma vez que incentivo e apoio estão sempre em falta! Nesse período, os treinos foram prejudicados por três feriados e pelo fato de os próprios atletas terem que sair atrás de patrocínio. Nosso técnico adoeceu e teve que ficar afastado, embora esse tenha sido o menor dos problemas, pois já estamos habituados a isso. Para somar à gama de motivos que podem destroçar o ânimo de qualquer bem-intencionado, o transporte conseguido foi uma van extremamente desconfortável. Entendo que as pessoas que não estão habituadas a lidar com deficientes físicos, tendem a fazer confusão e a maioria sequer sabe a diferença entre paraplégicos e tetraplégicos. Os paraplégicos possuem controle de tronco e força nos membros superiores, o que permite que se movam sobre os bancos e façam elevações para aliviar o peso sobre as nádegas e costas. Isso faz o sangue circular e evita males como a disreflexia e as famigeradas escaras. Já o tetraplégico permanece o tempo todo imóvel e os movimentos de elevações dos quadris e esticar as pernas têm que ser feitos pelos apoios; o que é impossível dentro de uma van minúscula, que mal cabe os atletas maiores e cujos bancos sequer reclinam. Sendo o bocha um esporte adaptado para deficientes com grande comprometimento físico, o atleta que não é PC – paralisado cerebral –, é tetraplégico com lesão severa, totalmente dependente de outrem e de boas acomodações físicas para manter a saúde do seu corpo. Assim, numa viagem como essa, de dezesseis horas para ir e dezesseis para voltar – apertados dentro de uma van como sardinhas na lata –, os riscos de tromboses, escaras e outras doenças atribuídas à falta de movimentos são bastante relevantes. Só para registrar, eu, Daniele e João Paulo tivemos crises de disreflexia autonômica tanto na ida quanto na volta, e João Paulo e Clodoaldo tiveram escaras nas nádegas. Ainda que com tantas dificuldades, uns apoiaram os outros e fomos contagiados pelo espírito da competição, de forma que estávamos decididos a dar o melhor de nós. Chegamos ao Hotel Debret, em Copacabana, exatamente as 14:00 da quarta-feira dia 10. A exaustão e dores em todas as partes sensíveis do corpo só me permitiram almoçar rapidamente e ir para a cama. A arquitetura do hotel é antiga – da época em que a sociedade sequer notava a existência de deficientes – e, portanto, o espaço reduzido dos elevadores e corredores não é propício ao trânsito de cadeirantes; tampouco os banheiros possuem adaptações adequadas. No entanto, não era a primeira vez que dávamos com tais obstáculos e, como antes, haveríamos de contorná-los. É minha opinião particular que as datas dos Campeonatos Brasileiros deveriam ser mudadas no calendário da ANDE, uma vez que sempre caem nesta época de frio. A baixa temperatura é inimiga dos lesionado-medulares e, até numa cidade como o Rio de Janeiro – quente a maior parte do ano –, o frio marcava presença. Debaixo de cobertores, eu nem tinha intenção de me levantar para jantar, pois duas horas deitado ainda não tinham sido suficientes para descansar da viagem e aliviar a vermelhidão das nádegas e costas, mas tive que atender ao chamado para tirar foto para as credenciais. Assim, uma vez na cadeira e cumprida a obrigação, optei por jantar e, cama novamente. De todos os campeonatos que participei, esse foi o primeiro que não teve cerimônia de abertura. Mas isso não incomodou em nada, tampouco o fato de os jogos começarem as 13:00. Ao contrário, isso deu tempo para descansar um pouco mais e tomar um belo banho frio pela manhã, a fim de incutir mais ânimo. Por mais que eu participe de competições oficiais, sempre me surpreendo com o nível de organização e a seriedade das mesmas. O VIII CAMPEONATO BRASILEIRO DE BOCHA 2006 contou com a presença de várias autoridades do desporto e para-desporto, como: Prof. Aldo Micollis – Presidente de Honra do COB (Comitê Olímpico Brasileiro); Prof. Joaquim Viegas – Delegado Técnico do IBC (International Boccia Committee) de Portugal; Profa. Helena Bastos – Coordenadora de Arbitragem Internacional do IBC – Portugal; Prof. Dr. Ivaldo Brandão Vieira – Presidente da ANDE (Associação Nacional de Desporto para Deficientes); Coronel Jorge Roberto Miranda – Mestre de Cerimônias; Coronel Frederico Frazão – Classificador Internacional – CP-ISRA (Cerebral Palsy - International Sports & Recreation Association); Prof. Ms. Cláudio Diehl – Classificador Internacional – CP-ISRA; Profa. Márcia Campeão – Coordenadora de Bocha da ANDE; Prof. Mt. Artur Cruz – Coordenador do VIII Campeonato Brasileiro de Bocha 2006; Prof. Erinaldo Pit Chagas – Árbitro Internacional – IBC e Dr. Sylvio Moreira – Coordenador Médico da ANDE. Pelo nível do Brasileiro, deu para se fazer uma idéia do que será o Boccia World Championship – Campeonato Mundial de Bocha –, que será disputado por 30 países, em outubro, em arena montada na belíssima praia de Copacabana. Embora nos anos anteriores o Campeonato Brasileiro tenha sido composto pela maioria das associações que fomentam o bocha no país, este ano apenas os atletas selecionados nos torneios regionais das suas respectivas regiões puderam participar. Por motivos de custeio da viagem, a região Norte não compareceu ao evento, que foi abrilhantado pela presença das seleções das regiões Sul, Sudeste, Centro-oeste e Leste. Talvez pelo fato de o evento ter sido realizado nas dependências de um quartel do Exército, não houve muita torcida, mas ainda assim, os 47 atletas participantes, apoios, comissões técnicas, árbitros e organizadores deixaram o ginásio do CEP – Centro de Estudos de Pessoal – do Forte Duque de Caxias apinhado. Num teste preliminar, pude comprovar que as quadras de madeira corrida eram muito boas, e logo a costumeira ansiedade pré-competição se fez presente no meu peito, como se algo invisível espremesse meu coração. Conversas rápidas com meus companheiros demonstraram que eles sentiam o mesmo. Tudo certo, pois se estávamos apreensivos, os adversários com certeza também estavam. Naquela tarde eu só teria um jogo e, infelizmente, contra meu parceiro de equipe: João Paulo. É sempre muito ruim enfrentar um amigo e parceiro. O JP é muito bom, mas dei o melhor de mim e consegui vencê-lo. O placar foi reduzido, mas senti a habitual sensação de estar preparado e lamentei não ter mais jogos naquele dia. Para quem não pratica esporte, é necessário saber que existe certa diferença de nível competitivo de um dia para o outro, como se fôssemos regidos por algo alheio à nossa vontade. Não sei se é a briga entre a sorte e o azar ou qualquer outra coisa, mas o fato é que na competição um dia nunca é igual ao outro. Como o jogador de sinuca, que um dia está matando bolas impossíveis e no outro está inexplicavelmente afastando as próprias bolas da caçapa. Assim é no bocha, quando se está bem, o sente na primeira partida e todas as outras correm maravilhosamente, quando não está, um capricho invisível parece desviar as bolas, por mais que você tente se concentrar. As partidas foram simultâneas nas quatro quadras montadas, de forma que não dava para acompanhar todos os jogos. Assim, somente quando me reuni com os outros atletas de Uberlândia, Uberaba e Campo Grande – Seleção Centro-oeste –, fiquei sabendo que a maioria que jogou naquele primeiro dia havia se dado bem. Da APARU, Cowboy, João Paulo e Múcio não tinham vencido suas primeiras partidas, mas era apenas o começo e todos tinham chances reais de se recuperarem. Ao chegarmos ao hotel, para evitar o apinhado refeitório e o transito nos elevadores, subi direto para o quarto no 3º andar, onde tomei banho – a fim de não ter que fazê-lo na manhã seguinte – e pedi ao meu apoio, Samuel, que levasse meu jantar. Após comer, comecei a ver um documentário no National Geographic Channel, mas devido ao extremo cansaço, apaguei em seguida. O segundo dia de competição começou as 05:30 da manhã, quando batidas na porta me despertaram. Se fosse meu sobrinho Douglas – meu apoio habitual –, não haveria qualquer problema, mas meu apoio da vez era um tanto inexperiente e sem iniciativa, de forma que me vestir, ajudar com a higiene matinal, transferir para a cadeira e tomar o desjejum foi uma verdadeira maratona. Ainda bem que pude contar com a providencial ajuda da Sandra – melhor apoio feminino que temos – para grande parte dos afazeres e, assim, antes das 07:00 eu já estava à espera da van, na portaria do hotel. Uma vez que só jogaria no segundo horário, fui para o ginásio na terceira van. O frio havia se intensificado e – apesar da blusa – meus braços apresentavam pequenos espasmos, me obrigando a uma maior concentração. Eu enfrentava o Eliseu – um jogador formidável da região Sul, com experiência internacional –, e logo na primeira parcial percebi que não estava bem naquele dia. Ainda assim, esforcei-me ao máximo e consegui evitar que o rapaz alongasse muito o placar. Venci minha segunda partida do dia, contra um rapaz – cujo nome não lembro – da região Leste, e a vitória incutiu-me um pouco mais de ânimo. Na terceira e última disputa do dia, perdi para o Adriano, da região Sudeste e, pelo critério de pontuação, eu estava irremediavelmente fora da disputa na categoria individual. Aquele dia realmente não foi bom para nenhum jogador de Uberlândia, mas os atletas BC1 e BC2 de Uberaba e Campo Grande estavam indo bem e, assim, a região Centro-oeste estava sendo bem representada. À tarde, um desânimo geral ameaçou se abater sobre nós, mas alguns ainda estavam na briga por medalhas e, para os desclassificados na categoria individual, ainda tinham as competições em duplas e equipes. A fim de espairecer um pouco, acompanhei alguns atletas e apoios que resolveram dispensar a van e caminhar pelos calçadões das praias do Leme e Copacabana na volta para o hotel. O ar marítimo me fez bem, pois cheguei ao hotel com as energias renovadas. Após repetir as ações da noite anterior, dormi pesadamente até as novas batidas na porta, que me acordaram as 06:00 da manhã seguinte. Sábado, último dia de competição. Enquanto passava pela labuta matinal, olhei o mar através da janela. Embora tivesse chovido muito e o céu estivesse cinzento, o sol parecia lutar com as nuvens lá em cima e, vez ou outra, aparecia timidamente. Aquilo me deu novo ânimo e senti antecipadamente que aquele dia seria dos bons. Após o desjejum no quarto, desci para o saguão. Eu e Clodoaldo – que não tínhamos jogo no primeiro horário – planejávamos seguir de cadeira para o CEP, a fim de curtir um pouco mais aquela manhã nublada. Contudo, as divindades do clima foram caprichosas, escondendo de vez o sol e trazendo de volta a chuva. Após o desmonta cadeira e nos coloca na van/monta cadeira e nos desce da van, estávamos de volta às quadras. Foi difícil assistir o embate entre Daniele e Clodoaldo, pois sendo ambos meus amigos e companheiros de equipe, fica difícil saber para quem torcer. Daniele, por estar numa melhor posição no ranking, tinha mais chances de se classificar para o mundial; por outro lado, Clodoaldo ainda tinha chance de medalha e melhorar sua posição no ranking. Assim, que vencesse o melhor! Naquela manhã Dani não estava muito inspirada, e Clodoaldo venceu sem muita dificuldade. Na minha classe – BC4 –, o Cowboy brigava pela medalha de bronze; aí sim, foi gostoso torcer e ver meu parceiro vencer brilhantemente a partida. Na competição em duplas, a equipe que possui mais de dois atletas pode contar com um reserva, e assim fomos eu e Cowboy para a quadra e João Paulo ficou à disposição. O páreo foi duro – o que, aliás, não podia ser diferente, estando no brasileiro apenas a nata do bocha nacional –, mas nossa estratégia funcionou e conseguimos vencer a região Leste. Na outra quadra, a dupla do Sul – composta pelo invicto Eliseu e o novato Everton – venceu a Sudeste. Embora eu e Cowboy estivéssemos bem, o João Paulo optou por começar jogando a final contra o Sul, mas assim que se posicionaram na quadra, notei a estratégia do Eliseu. O campeão invicto na categoria individual é especialista em bolas curtas e se posicionou ao lado do João Paulo, cuja especialidade é jogar bolas longas. Na terceira parcial e perdendo de 4 x 0, meu amigo – visivelmente nervoso – não conseguiu cumprir a estratégia e jogar a bola alvo no fundo da quadra. Reconhecendo humildemente o erro, o próprio João Paulo pediu para ser substituído e eu entrei na quarta parcial. Ainda conseguimos fazer pontos, mas o placar era elástico e a formidável dupla sulista ganhou o ouro também naquela categoria. Ficamos com a prata, o que não foi um mau resultado. Nas duplas BC3, nossa seleção ganhou o ouro, e a equipe composta pelos atletas BC1 e BC2 obteve prata. No final, a delegação da região Centro-Oeste, formada pelas equipes da APARU – Associação dos Paraplégicos de Uberlândia – Uberlândia/MG, ADD – Associação Campo-grandense Para-desportiva Driblando as Diferenças – Campo Grande/MS e ADEFU – Associação dos Deficientes Físicos de Uberaba – Uberaba/MG obteve um total de sete medalhas: três de ouro, duas de prata e duas de bronze. As medalhas somadas à maior pontuação nos conferiram o grande e cobiçado troféu de primeiríssimo lugar do VIII Campeonato Brasileiro de Bocha 2006. Eis o quadro de medalhas:
Na Seleção Centro-oeste, as medalhas de ouro foram méritos dos atletas Éder Vieira – BC2, ADD/MS, José Carlos – BC1, ADEFU/MG e dupla BC3, formada por Gefferson – ADD/MS (Calheira Maria) –, Mariane – ADEFU/MG (Calheira Jackeline) – e Daniele – APARU/MG (Calheira Franciele). As medalhas de prata ficaram para os atletas da dupla BC4, Nardélio, Valmir e João Paulo – APARU/MG e equipe BC1 + BC2, Éder, Juliana, José Carlos, Sílvia e Múcio. As de bronze, para Gefferson – BC3, ADD/MS (Calheira Maria) –, e Valmir – BC4, APARU/MG. Após a premiação, voltamos ao hotel. Esperei o final da reunião do pessoal da ANDE com os representantes das delegações e soube que sete atletas da região Centro-oeste estavam pré-convocados para compor a seleção que defenderá o Brasil no Campeonato Mundial. A má notícia era que o João Paulo havia sido inelegível, ou seja, o fato de conseguir elevar o braço acima da cabeça para jogar demonstrava força excessiva, totalmente incompatível com o permitido a um atleta de bocha. Isso deixou todos chateados, sobretudo o JP, que tanto vinha se empenhando. Dos sete pré-convocados, quatro são da APARU, e foi realmente uma surpresa saber que eu estava entre eles. Embora meu desempenho no brasileiro não tenha sido dos melhores, conto com uma boa posição no ranking nacional, e isso me valeu a quarta vaga na pré-convocação. Contudo, nossas participações na seleção não estão garantidas, pois foram pré-convocados cinco atletas de cada classe, para preencher três vagas. Assim, no final de junho, a Sílvia – BC1 –, Daniele – BC3 –, Cowboy e eu – ambos BC4 –, estaremos representando Uberlândia na seletiva e brigando pelas vagas definitivas. Estou ciente que a batalha que tenho pela frente não será fácil, pois disputarei com os quatro melhores do Brasil na classe BC4: Cowboy – Centro-oeste (bronze), Adriano – Sudeste (prata), Eliseu – Sul (ouro) e José Roberto – Sudeste (1º do ranking). Agora é intensificar os treinamentos e me preparar para enfrentar as feras. O fato de ter chegado até aqui prova que tenho condições de competir de igual para igual e, quem sabe, estar entre os três selecionados. No final de junho, farei o que sempre tenho feito em tudo que me proponho no decorrer da minha vida: darei o melhor de mim. E que Deus ajude os que mais merecerem.
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