| VI CAMPEONATO BRASILEIRO DE BOCHA - 2004 - GUARUJÁ/SP |
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Embora o frio já estivesse pegando pra valer, as 21:00 da terça-feira eu já estava preparado para a viagem e, devo dizer, bastante animado. A van adaptada para transporte de deficientes do sistema “porta a porta” chegou para nos buscar – eu, Douglas e Anderson – por volta das 21:30, passando em seguida na casa da Daniele, onde, além dessa, pegou sua irmã Franciele – seu apoio e calheira – e sua mãe, Sandra, que foi como apoio da Silvia. Por ultimo a van pegou o Edinho, no bairro Tibery. Chegamos à sede da APARU, onde encontramos nossos outros companheiros de viagem, cada um com sua ansiedade – embora já tenhamos feito outras vagens, a ansiedade da primeira se repete em todas. Esperamos o microônibus que ia nos levar e, “para variar”, a decepção foi geral quando ao invés de um microônibus, chegou uma van. Uma van das grandes, mas ainda assim uma van, totalmente desconfortável para vagens longas. Essa puxava uma carretinha, aonde iriam nossas cadeiras de rodas e outros apetrechos. Embora decepcionados, já estamos acostumados a esses contratempos; se a culpa é de fulano ou beltrano, ninguém sabe, mas o fato é que em todas as viagens prometem um veículo e quando chega a hora vem outro, muito inferior ao prometido. Esse foi o primeiro contratempo, mas tudo bem, já sabendo que haveria outros ainda mais significativos, eu e meus companheiros estávamos preparados. Aos trancos e barrancos, embarcamos na van, cada um sendo colocado no banco que mais seu corpo pudesse se ajustar. Eu, com meu metro e oitenta e cerca de oitenta e cinco quilos, tive que ser colocado no primeiro banco, ainda assim com os joelhos meio espremidos nas ferragens do banco do motorista. Mas, tudo bem, toda meta exige alguns sacrifícios, e o mais importante era o ânimo da galera, que estava mais pra cima que efeito de Viagra. Finalmente partimos, 01:10 da madrugada de quarta-feira, 26 de maio de 2004. O desconforto causado pelo reduzido espaço no interior da van acentuou-se logo no início, quando adentramos a esburacada BR 050. Andados não mais que 50 km, todos tivemos que ser reposicionados nos bancos. Uma almofada foi colocada entre meus joelhos e as ferragens, de forma que, além de proteger, evitava que eu escorregasse para frente. O Amado, nosso novo técnico, que é paraplégico por seqüela de pólio, por opção viajava sentado no assoalho, ao lado do motorista. E a Silvania, nossa chefe de delegação, que estava com problemas num joelho, viajava desconfortavelmente na diminuta primeira poltrona do lado direito. Acho que um pensamento coletivo bailava nos cérebros dos ocupantes da van: “Esta será uma longa viagem”. Ao chegarmos ao trecho em que a BR 050 está sendo duplicada, pouco antes de Uberaba, cessaram os sacolejos e conseqüentemente a viagem se tornou um pouco mais confortável. Sobretudo ao ultrapassarmos o Rio Grande e adentramos o estado de São Paulo e a Via Anhangüera, que mais parece um extenso tapete negro, fazendo valer cada centavo dos caríssimos pedágios. Nossa pequena delegação era formada por um total de quatorze pessoas, sendo cinco atletas: eu e “Cowboy” na classe BC4, Daniele e Edinho BC3 e Silvia BC1. Os apoios Douglas, Anderson, Bimba, Sandra e Franciele; Clodoaldo BC3; Amado, o técnico; Silvania, chefe de delegação e o motorista “Zé da Zuzu”. O Clodoaldo foi apenas como observador, não podia participar da competição, pois no Campeonato Brasileiro de Bocha só podem participar dois atletas por classe, e na BC3 Edinho e Daniele são mais bem posicionados no ranking. Como no Regional Centro-oeste, em Goiânia, Múcio, nosso BC2 – que não faz falta apenas pelas suas habilidades de atleta, mas também pelo companheirismo e qualidades como ser humano –, não pôde ir, pois está próximo de fazer uma nova cirurgia na coluna. Na tradicional parada do posto Graal, nas imediações de Pirassununga, o frio estava ainda mais cortante e desceram apenas aqueles que realmente precisavam descer. A viagem prosseguiu e por volta das 11:00 adentramos a grande São Paulo. Talvez por não ser familiarizado com a metrópole, o motorista se perdeu e demos muitas voltas a esmo. No entanto, um paulistano desempregado concordou em servir-nos de guia por certa quantia e, daí, não foi difícil deixar São Paulo a caminho do Guarujá. Descendo rumo ao litoral, conhecemos as famosas curvas da estrada de Santos, em meio a exuberante paisagem de Mata Atlântica e vertiginosos precipícios. Passamos a poluída Cubatão, onde tivemos que fechar os vidros da van, uma vez que a fuligem das torres enfumaçadas chegava a arder nos olhos. Pouco mais ou menos as 14:00, finalmente adentramos a belíssima Guarujá, ansiando por banhos, descompressão das nádegas e descansos aos esqueletos exaustos. Três gentis representantes da polícia local nos escoltaram até o Hotel Porto Rei, na enorme e bela – porém gelada – praia da enseada, onde ficariam hospedadas todas as delegações, provenientes de várias partes do país. Ao chegarmos ao hotel, antes mesmo que descêssemos da van, fomos informados que deveríamos ir ao ginásio – onde seriam realizados os jogos –, em cujo refeitório estava sendo servido o almoço. Claro que ficamos meio perdidos. Sem a escolta dos policiais, que já tinha ido embora, usamos o velho “quem tem boca vai a Roma” e levamos pouco menos de trinta minutos para chegarmos ao local. O ginásio, de nome Guaibê – ou algo assim – era bastante suntuoso. No amplo espaço dedicado, foram montadas nada menos que seis quadras de bocha e ainda sobrara bastante espaço para a concentração e outras atividades dos atletas, árbitros, dirigentes e torcidas. Das quadras podíamos ver as alas do andar superior, onde crianças, adolescentes e adultos treinavam várias modalidades olímpicas. Como naquela tarde só haveria classificação dos atletas novatos – todos da nossa equipe já são classificados – e a abertura dos jogos só seria no outro dia pela manhã, após o almoço e um breve reconhecimento do ginásio, voltamos ao hotel, para o esperado banho e o merecido descanso. O segundo contratempo da viagem se deu no hotel. Esse era desprovido de elevadores ou rampas de acesso ao andar superior, de modo que o acesso era impossível a cadeirantes. Havia apenas duas quitinetes reservadas a nós no térreo, as outras duas ficavam no andar superior – uma falha feia dos organizadores –, de modo que tivemos que nos amontoarmos os homens numa e as mulheres na outra. Não obstante, já tendo passado por coisas piores – inclusive os desconfortos da viagem – também não era aquilo que iria diminuir nossos ânimos. O cansaço era tanto que a maioria se recusou a voltar ao ginásio para jantar e, após algumas conversações, nossa competente Silvania conseguiu que nos servissem no hotel. Quinta-feira. Embora o frio estivesse mais ameno em relação ao dia anterior, não estava exatamente de tirar as blusas. Tínhamos previsto algumas dificuldades e, levantado as 05:30 da matina – já expliquei em outros testos que não é fácil para os apoios arrumarem e alimentarem os tetraplégicos –, tomamos o desjejum apressadamente e rumamos para a portaria do hotel, onde um transporte local nos levaria ao ginásio. Ali conhecemos o terceiro e maior contratempo da viagem: apenas um microônibus adaptado estava transportando todas as delegações. Esse levava cerca de meia hora para completar a lotação, meia para chegar ao ginásio, meia para descarregar e mais meia para voltar ao hotel, de modo que se não fossemos na primeira viagem, só veríamos o ônibus duas horas depois e chegaríamos ao local dos jogos depois de mais uma. Chegamos ao ginásio as 12:00 e perdemos a abertura do evento, que começara as 10:00 e terminara as 11:40. A abertura não era tão importante, mas tínhamos que achar uma solução para aquele problema, uma vez que na sexta e sábado os jogos começariam as 08:00 em ponto, e o atleta que não estivesse na concentração no máximo dez minutos antes, perderia a partida por W.O. Durante o almoço, o Amado nos passou a grade de horários: eu teria duas partidas naquela tarde. A primeira, que se iniciou as 13:00, venci sem muitas dificuldades um atleta do Rio de Janeiro, por um placar elástico de 10 x 1. Minha segunda partida se deu as 16:00; o frio havia se intensificado e, ainda que trincando os dentes para não bater o queixo, novamente venci meu adversário por um placar significativo de 7 x 1. Nessa partida não encontrei nenhuma facilidade, pois enfrentei o Mecenas, de Campo Grande – três vezes campeão brasileiro e número um do ranking na categoria BC4. Descobri que meu adversário estava com uma lesão no braço, tendo, portanto, dificuldades para lançar bolas à distância. Nas minhas duas vezes de lançar a bola branca – bola alvo –, joguei-a no fundo da quadra, praticamente fora do alcance dele. A estratégia funcionou. Daniele e Edinho também venceram brilhantemente suas duas partidas do dia, ambos também por placares significativos. A Silvia só jogou uma partida e a perdeu. O Valmir – Cowboy – também venceu sua primeira partida. Nossa equipe estava indo bem. Jantamos e, na volta para o hotel, havia outro ônibus adaptado para levar o pessoal. Embora ainda estivesse longe de suprir as necessidades de tantos cadeirantes, a coisa melhorara e, no mais, tropeços e sacrifícios fazem parte do jogo. Sexta-feira. Para evitar maiores transtornos, levantamos as 05:00 da matina. O frio havia se intensificado ainda mais e estava enregelando os ossos. A lesão medular severa de um tetraplégico o priva do sistema parassimpático – responsável pelo controle da temperatura corporal –, fazendo-o um ser de extremos: se esta fazendo calor, a falta da sudorese normal causa um enorme aquecimento interno do corpo, às vezes chegando à febre. No frio extremo o efeito é inverso, entretanto, ainda mais catastrófico, pois parece enregelar os ossos e incutir espasmos musculares e extrema tensão nos músculos ainda ativos, sobretudo nos ombros e pescoço. Desta forma, os atletas cujas deficiências não são causadas por lesão medular levam grande vantagem sobre nós. Com um gorro tampando as orelhas sob o capuz da blusa, tomei o desjejum rapidamente e rumei para a portaria do hotel. Minha cadeira dá a vantagem de não ter que ficar esperando o apoio para me empurrar, de modo que me embrenhei no meio da turba e embarquei no primeiro ônibus. Enquanto o veículo fazia o percurso de meia hora até o ginásio, observei o céu escuro e feio, prenunciando um dia de baixíssima temperatura. Apesar do agasalho, o frio penetrava meu corpo como punhais de gelo e causava tremores convulsivos. Não fosse pelo campeonato, nada me tiraria da cama. Minha primeira partida estava marcada para as 08:00 e, as 07:40 eu estava na concentração. A nave principal do ginásio, onde ficavam as quadras – adaptadas para o bocha –, parecia uma imensa câmara frigorífica, tal a intensidade do frio. Ao conhecer minha adversária, doze minutos antes do início da partida, um calafrio percorreu minha espinha. Era a atleta de Uberaba que vencera brilhantemente a mim e a outros em Goiânia e conquistara a medalha de ouro naqueles jogos. Embora concentrado, a observei de soslaio e percebi que ela psicologicamente não estava no melhor dos seus dias, talvez pelo frio ou por algo mais. Venci no “cara ou coroa” e escolhi as bolas vermelhas, a fim de de jogar primeiro. Lancei a bola alvo no fundo da quadra e, em seguida, aproximei minha primeira bola cerca de meio metro dela. Um bom lançamento. Ao sinal do árbitro, a menina foi lançando suas bolas uma após a outra, não aproximando nenhuma da branca, mais que a minha. A cada bola que lançava e errava, piorava sua concentração. Aproveitei-me do fato e ganhei a partida por nada menos que 10 x 0. Tive certa compaixão da menina, sobretudo pela sua grande simpatia, mas aquilo era um campeonato e venceu o mais frio. Tudo caminhava a meu favor: havia ganhado minhas três primeiras partidas e acumulado nada menos que vinte e cinco pontos positivos, contra apenas dois negativos. Eu teria outra partida as 13:00, mas vencendo ou perdendo, já estava na semifinal, que aconteceria as 16:00. Eu, que chegara ali descrente, já começava a acreditar na possibilidade de conseguir uma medalha. No entanto, mais uma vez me foi provado que não se deve contar com o ovo ainda nas entranhas da galinha. Terminada minha partida, descobri que Daniele e Edinho jogariam no próximo horário, dali a quinze minutos. Tudo estaria bem se o Edinho já estivesse no local. Rumei depressa para a entrada do ginásio, na esperança que meu amigo já tivesse chegado, mas o ônibus só adentrou o portão mais de cinco minutos depois. Antes que esse estacionasse, gritei o Bimba – dedicado apoio e calheiro do Edinho –, para descê-lo depressa, uma vez que já deveria estar na concentração. O Bimba fez tudo que pôde, mas chegaram à concentração 08:53 e o limite era 08:50. O Edinho perdeu a partida por W.O. Esse fato causou tristeza no Edinho, que estava indo bem e, por conseqüência, a todos nós. Houve vários rumores sobre de quem era a culpa do atraso, mas fosse ou não de fulano ou beltrano, a verdade é que de nada adiantaria culpar alguém, se já não era mais possível reparar o erro. Para encerrar a história, ficou expresso que ninguém tinha culpa. Mas meu amigo continuou triste. Não posso prosseguir neste texto sem render uma justíssima homenagem aos nossos apoios: Douglas – meu sobrinho querido, que se esforça ao máximo e alcança grande sucesso na árdua tarefa de me apoiar –, Bimba – que tem um carinho especial e apóia muito bem o Edinho e, às vezes, o exigente Cowboy –; Anderson – que apesar de um tanto moleque, se doou na tarefa de apoiar o Clodoaldo –; Sandra – que embora vá como apoio da Silvia, se desdobra e apóia todos nós –; Franciele – irmã, calheira e apoio da Daniele –; Silvasnia – nossa chefe de delegação que se desdobra nas suas funções e além delas – e nosso técnico, Amado, que embora meio desligado é sempre solícito. Enfim, já nos tornamos uma grande família e acaba que, na verdade, não existe um determinado apoio de quem, mas todos se desdobram para se ajudarem mutuamente. Evidente que sem nossos apoios não haveria viagem, menos ainda competição. Não posso deixar de mencionar nossa querida Glória Cobra. Embora por força maior, hoje vive em outra cidade e não pode estar conosco, continuará sendo nossa eterna treinadora. Sabemos do amor que ela tinha e com certeza ainda tem por essa equipe. A presença da sua chama incentivadora nas nossas mentes e corações é forte e, com certeza, não se apagará. Para amenizar a tristeza pelo W.O. do Edinho, a Daniele tornou a vencer de forma brilhante e o Cowboy venceu sua segunda partida por nada menos que 11 x 0. Silvia infelizmente perdeu outra vez e estava fora da competição. Um pouco mais tarde, próximo ao horário de almoço, recebi as visitas da minha amiga Gisela, sua irmã e sobrinho. Batemos um papo e, então, tive que ir almoçar, a fim de não deixar tudo para última hora. Minhas amigas se foram e a Gisela prometeu voltar depois, o que realmente o fez ainda a tempo de me ver perder. Como se fosse possível, o frio pareceu piorar ainda mais após o almoço e, na concentração, descobri a identidade do meu adversário. O Dirceu, de Mogi das Cruzes, sem dúvida é o melhor atleta BC4 do Brasil na atualidade. Segundo ouvi no círculo, é extremamente dedicado ao bocha e treina todos os dias. Antes da partida pude notar o quanto é compenetrado e, no decorrer da mesma, pude constatar sua admirável concentração. Ele tem certas vantagens sobre os outros atletas, entre elas consegue andar, possui força e quase todos os movimentos dos membros superiores, podendo lançar a bola por cima, por baixo ou de lado com uma precisão incrível, totalmente imprópria a um jogador de bocha. Mas o fato é que o rapaz jogou brilhantemente e, embora eu tenha me esforçado ao máximo e conseguido dar algum trabalho, ele provou ser realmente merecedor da fama de imbatível. Venceu-me por 9 x 2 e continuou invicto na competição. Embora a contragosto, pois realmente não é agradável perder, o parabenizei sinceramente pela atuação brilhante e merecida vitória. A Daniele tornou a vencer e continuou invicta na competição. O W.O. do Edinho pesou muito e, na soma dos pontos, ele ficou fora da disputa por medalhas na categoria individual. O Cowboy perdeu sua terceira e quarta partidas e também estava irremediavelmente fora. Uma nuvem negra pareceu baixar sobre a delegação da APARU, exceto sobre a Daniele, cujo rosto brilhava tal qual o sol que estava nos faltando. No ânimo em que estava, a menina parecia nem se dar conta do frio cortante que tirava nossa concentração: vencia uma partida após a outra, e a cada uma delas crescia nosso orgulho por tê-la na equipe. Finalmente chegara a hora da minha semifinal. O frio era tanto e meu estado psicológico tão maltrapilho que mal acreditava que pudesse jogar aquela partida. Enfrentaria um falastrão – também de Mogi das Cruzes – que os amigos chamam simplesmente de Zé. O cara também jogava uma barbaridade e na terceira parcial do total de quatro, eu já perdia de 4 x 0. Na quarta parcial, iniciei uma reação e o jogo se tornou finalmente disputado. A cada jogada nossa, uma salva de palmas se fazia ouvir pelas nossas respectivas equipes. Estava ciente que se ganhasse aquela partida, já garantiria a medalha de prata e ia disputar a final com o Dirceu. E que viesse o Dirceu! Naquela hora estavam na partida: coração, pulmão, alma e tudo o mais que pudesse colocar. O cronômetro corria e, tentando maior concentração, usei até os últimos segundos do tempo de cinco minutos que me são de direito. Mas apesar de ter dado tudo de mim, errei minha última bola e perdi a medalha de prata por um único ponto. Fiquei chateado, sobretudo por ter desapontado meus companheiros de equipe, que tanto torceram e confiaram em mim. Mas em jogos, para um ganhar, outro tem que perder, e aquela foi minha vez de amargar a derrota. Totalmente desconcentrado e a mercê do frio, perdi também a medalha de bronze para a Silvia – bela morena de Campo Grande. Ela jogou barbaramente e venceu também por apenas uma bola de diferença. Um fato inusitado é que não me importei nem um pouco de ter perdido aquela partida. Era como se aquela medalha já pertencesse a ela por antecipação, uma vez que em Goiânia eu a havia ganhado na soma dos pontos, deixando-a em quarto lugar. Mas nem por isso eu amoleci, todos os méritos foram da garota, que foi uma adversária excepcional e me venceu de forma inquestionável. Como na minha estréia em Petrópolis, no brasileiro passado, eu estava amargando o quarto lugar geral e aquilo não parecia tão ruim, sendo uma competição com atletas de tão alto nível. A final da classe BC4 foi simultânea a disputa pelo bronze e, como esperado, o ouro ficou com o Dirceu e a prata com seu colega Zé. A Daniele venceu sua última partida do dia e garantiu a medalha de prata e o direito de lutar pelo ouro na manhã seguinte. Sábado. Novamente despertamos as 05:00 da matina. O Douglas me vestiu o agasalho e, com ajuda do Bimba, sentou-me na cadeira e terminou de me arrumar. Uma passada no refeitório, para um rápido desjejum – auxiliado pela Silvania – e uma vez mais me embrenhei na turba que se formara junto ao primeiro ônibus. Daniele foi a última a entrar e finalmente partimos, chegando ao ginásio por volta das 07:30. Ainda que o frio continuasse e o vento parecesse cortar a pele, fora da cobertura do ginásio os raios de um sol tímido se faziam notar: prenúncio de um sábado menos torturante do que fora a nebulosa sexta-feira. Pouco mais ou menos 07:40, eu, Cowboy e Daniele, entramos na concentração. Aos poucos fomos conhecendo nossos adversários. Eu e Cowboy enfrentaríamos a dupla de Campo Grande, Mecenas e Silvia. Como eu havia conferido na tarde anterior, a menina estava jogando muitíssimo bem, mas o problema no braço direito do Mecenas podia nos dar certa vantagem. Perdemos a primeira parcial por 1 x 0 e ganhamos a segunda por 3 x 0, no entanto, devido a dois erros da arbitragem, a partida teve que ser anulada e o início de outra foi marcado para vinte minutos mais tarde. Como o interior do ginásio parecia uma câmara frigorífica, eu e Cowboy aproveitamos quinze desses minutos para ficarmos no sol e combinarmos uma estratégia. Ficou decidido que ambos jogaríamos nossas bolas brancas no fundo da quadra, fora do alcance do Mecenas. Mas, por ser melhor em bolas curtas, o Cowboy ficou com medo de ultrapassar os limites e lançou sua bola alvo apenas no meio da quadra. Isto facilitou um pouco e perdemos a primeira parcial novamente por 1 x 0. Daí em diante, ambos nos desconcentramos e na terceira parcial já perdíamos de 5 x 0. Não seria fácil recuperar, mas na quarta e última parcial, numa tentativa arriscada joguei a bola alvo a pouco mais ou menos vinte centímetros da fita que limitava o fundo da quadra. A estratégia funcionou e ganhamos por 4 x 0, mas a partida terminou em 5 x 4. A dupla de Mogi das Cruzes ganhou a outra semifinal, disputou a final com Campo Grande e Dirceu e seu parceiro ganharam também o ouro em duplas. Das três duplas que perderam, eu e Cowboy fomos os únicos que perdemos por diferença de um ponto, assim, ficamos em terceiro lugar, com direito à medalha de bronze. Mas – não explicaram porque –, o critério que os árbitros usaram foi a eliminação simples. De forma que a dupla que perdeu para os campeões ficou com o bronze. Injusto, muito injusto, mas quem faz as regras são eles. No final, para quem não esperava chegar tão longe, até que não fui de todo mal, fiquei em quarto lugar nas duas categorias que disputei no concorrido VI Campeonato Brasileiro de Bocha. A Daniele foi a grande campeã invicta da categoria BC3 individual. E em dupla com Edinho, iniciara muito bem. Como já não existia nenhuma chance para o restante da equipe, concentramos nossa torcida em torno de Edinho e Daniele. E esses não nos decepcionaram: como o Edinho prometera na noite anterior, ganharam o ouro na categoria dupla. Daniele estava imbatível e, creio eu, se não fosse o W.O. do Edinho, ambos teriam feito a final BC3 individual, pois o “venenoso” também estava arrasando. A premiação foi ali mesmo no ginásio. Na hora da entrega das medalhas, a organização errou feio, premiando a mim com a medalha de bronze da BC4 individual – medalha que com todo merecimento pertencia à Silvia, de Campo Grande. Um tanto constrangido fui obrigado a atender ao chamado e receber a medalha, mas com intenção de devolvê-la à legítima dona. Coisa que fiz um pouco mais tarde, durante a premiação das duplas BC3 e BC1, com um pedido de desculpas pela falha de outros. No geral a APARU ficou em segundo lugar. A diferença de pontos para o primeiro foi mínima, de modo que se Edinho não tivesse levado W.O. e eu, Cowboy ou Silvia tivéssemos conseguido melhores colocações, com certeza teríamos sido os grandes campeões e teríamos levantado o troféu de primeiro lugar. Bem, no campeonato brasileiro do ano passado fomos terceiro lugar, nesse fomos segundo e no ano que vem seremos primeiro. À tarde, ainda no ginásio, chegaram duas queridas amigas de São Paulo: Cida e Marina. Éramos amigos virtuais há cerca de dois anos – embora há muito mais elas conheçam em pessoa minhas primas de BH –, mas aquela era a primeira vez que nos víamos pessoalmente. E não dá para expressar em palavras o prazer que senti ao estar com elas, pois são belíssimas, extremamente simpáticas e excepcionalmente extrovertidas. Dali a pouco mais ou menos duas horas, chegaram também minha prima Nísia e o marido Renato, também moradores da capital e pessoas que adoro. A maioria das delegações já tinha ido para o hotel, ficando somente uns poucos retardatários, entre eles eu, Douglas e meus visitantes de São Paulo. Fui embarcado no microônibus e fomos seguidos de perto pelos meus amigos até o belíssimo Aquário Oceânico, onde pudemos ver de perto tubarões, pingüins, arraias, cavalos-marinhos e uma infinidade de outros habitantes dos mares, que um habitante do cerrado como eu não conhecia. Cortesia do simpático Luiz, um dos organizadores do evento, morador daquela cidade. Após a visita ao aquário, fomos a pé para o hotel, há vários quarteirões dali. Embora tivesse um churrasco para as delegações, eu e meus amigos de São Paulo decidimos por um barzinho e, após algumas Bohemias, voltamos ao hotel. O churrasco havia acabado e optamos por comprar algumas bebidas e petiscos, que foram preparados pela Sandra, na quitinete em que estávamos hospedados. E apesar de extremamente cansados, a pequena festa varou a madrugada. Minhas belas amigas Cida e Marina voltaram a São Paulo, pois embora fosse domingo, a ultima tinha que trabalhar. Nísia e Renato se hospedaram num hotel ali perto e, lá pelas 04:00, “aéreos” pelo efeito da bebida e dominados pela exaustão, todos fomos dormir. Acordamos por volta das 08:00. Aí começou a maratona de arrumar as coisas para a volta. Enquanto uns tomavam o café da manhã, outros arrumavam as bagagens e vice-versa. Pouco antes das 10:00, Nísia e Renato chegaram e ajudaram nos a embarcar na desconfortável van. O tímido sol matinal havia sumido, trazendo de volta o frio e até alguns grossos pingos de chuva. Cerca de uma hora depois, nos despedimos, meus queridos primos voltariam a São Paulo e nós para a distante Uberlândia. A viagem de volta foi sem incidentes, mas ainda mais demorada e cansativa. 01:00 da madrugada da segunda-feira, quatorze horas após a partida no hotel Porto Rei, na bela praia da enseada no Guarujá, adentrávamos a capital do Triângulo.
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