Apresentação

      HERANÇA MALDITA
 

III

Chegando a casa, ele foi notificado por Flozina que havia um homem a sua espera. Assim que adentrou o amplo e sombrio escritório, o rapaz cumprimentou o homem que jazia numa velha poltrona de madeira negra e veludo violeta. Era um dos advogados da sua companhia. Havia muitos problemas a serem resolvidos, os piores sobre um túnel que tinha desmoronado numa estrada de ferro em construção. Contudo – o rapaz respirou aliviado –, os prejuízos, embora gigantescos, tinham sido apenas materiais e nenhuma vida havia se perdido.

Ambos almoçaram e depois passaram a tarde no escritório, trabalhando incessantemente. Eram centenas de documentos e pequenos contratos para Arlindo analisar e assinar. Os cafezinhos e refrescos eram quase sempre servidos por Flozina. Somente uma vez Clara os serviu. O rapaz pôde então prestar mais atenção à moça: embora séria e concentrada, seus traços eram suaves, sua pele parecia pêssegos recém-colhidos, sua voz – na única vez que falou – uma sinfonia de anjos... e seu sorriso... ah, seu sorriso!... parecia colorir o mundo.

Somente à tarde o advogado tomou o caminho de volta ao povoado, onde pernoitaria, a fim de partir para a capital com o nascer da manhã seguinte. Antes fora convidado a pernoitar ali, mas no hotel do povoado tinha ouvido certos comentários funestos sobre a mansão, que o fizera recusar o convite.

Arlindo, que se despedira do funcionário na estrada, finalmente respirou fundo e caminhou de volta a casa.

– Clara!... Clara !

– Senhor? Que houve? – Clara se assustou com o tom ansioso na voz de Arlindo, que entrava sorrateiramente na varanda.

Estava há tempos naquela casa e Arlindo jamais lhe dirigira a palavra.

– Desculpe, se lhe assustei... Gostaria de falar contigo.

– Sim, senhor, pode dizer – responde Clara, pensando no pior. Será que Arlindo a mandaria embora? – Eu fiz algo que não lhe agradou, senhor?

– Em primeiro lugar, não me chame de senhor, não sou tão velho assim – ironiza Arlindo, querendo ver sua reação.

Clara sorriu sem jeito e balbuciou:

– Não, não é velho não, senhor...

O sol retirava-se, e a noite chegava de mansinho. As folhagens ao redor da varanda estavam em tons artificiais verde-pálidos, compondo o cenário do silêncio que se fazia anunciar, e os pássaros já buscavam seus abrigos para o repouso noturno.

Arlindo, recostado no banco de madeira, quieto, examinava Clara. A seu pedido, ela havia sentado timidamente a seu lado, mas mantinha certa distância. Nunca antes percebera como ela era parecida com Maria... cabelos pretos, olhar de maresia... Maria tinha razão, clara era a mulher da sua vida.

Clara enrubesceu e baixou os olhos, atordoada com o olhar penetrante de Arlindo. Ele percebeu o constrangimento da moça e desviou os olhos para o jardim, em seguida começou a falar de Maria, de sua vida, de sua manhã na colina... e finalmente da descoberta.

Clara o escutava, imóvel, com o olhar de quem acabara de presenciar um pequeno milagre.

– O que acha de tudo isso? – indagou, procurando o rosto da moça desesperadamente.

– Que posso dizer? – murmurou ela de cabeça baixa. – Eu vim trabalhar nesta fazenda apenas para ficar perto de você... Há muito que te amo desesperadamente!

Arlindo, ao ouvir aquilo, mal pôde acreditar. Não hesitou um só segundo e a tomou suavemente nos braços. Clara ficou como se estivesse sonhando: olhos cerrados, lábios entreabertos... Arlindo inclinou sua cabeça para trás, beijou suas sobrancelhas, a face, o nariz, os olhos, e finalmente os lábios. Aconteceu devagar e profundamente, com todo o carinho de que era capaz.

– A partir de hoje viverei por você, meu amor. Sempre e somente por você! – ele murmurou no ouvido dela.

Naquela noite Arlindo redescobriu a felicidade. Tanto que não conseguia dormir e, por horas, ficara ali, com um sorriso bobo no rosto, velando o sono tranqüilo de Clara. Ela parecia ainda mais bonita enquanto dormia... um anjo... seu anjo.

Na época o zelo pela moral e os bons costumes eram rígidos e não estava certo ele ter ido para a cama com Clara, com a virgem Clara. A própria Flozina diria isso a ele na manhã seguinte, em alto, claro e bom tom. Mas os dois amantes não foram capazes de resistir à paixão e ao desejo que ardia em suas entranhas. Fora a própria menina que quase implorara para que ele fizesse amor com ela. E fizeram amor de forma fantástica, divina, transcendental. Amor como dali em diante fariam todas as noites de suas vidas.

Para que a reputação de Clara não fosse maculada, eles se casariam o mais breve possível. Pois, embora na pré-conversa que tivera com a menina, ela tivesse se mostrado dona de grande personalidade, e tivesse dito que o amava e não se importaria com o que os outros viessem a falar ou pensar sobre ela, ele se importava. Ele se importava... e muito. Ele a preservaria e protegeria com a própria vida se preciso.

De repente seu semblante se tornou sério e ele assumiu novamente sua postura taciturna. O fato de ter feito amor com Clara estava consumado, e fosse qual fosse o problema que tal ato viesse a acarretar, ele tinha o amor da moça e era isso que importava. Com as conseqüências ele arcaria e resolveria depois, quando essas viessem.

Naquele momento sua apreensão era devido à outra coisa: Lembrou que ao adentrar a casa naquela tarde, sentiu novamente aquela sensação peculiar de malignidade. Quando garoto e adolescente, Arlindo sempre sentira estranhas sensações ao adentrar a velha mansão, e essas eram quase sempre acompanhadas por suor frio e calafrios a percorrer-lhe a espinha. Era algo forte, como se fosse um campo de força sobrenatural a barrar sua entrada. Inconscientemente ele se esforçava para adentrar a casa, e logo que conseguia, era invadido por estranhas e deprimentes sensações, além de diversos pensamentos funestos. Desejava ardentemente ferir a si mesmo, torturar pequenos animais, maltratar os criados, etc. Tinha que se esforçar muito para não fazê-lo. Certa vez chegara a ter vontade de pegar a velha espingarda de caça do avô e...

Sua memória o levou ao dia em que, a pedido de seu pai, o velho padre da Paróquia de São Domingos tentara rezar uma missa nos jardins da casa. Uma repentina tempestade de vento, vinda do nada, não permitiu que a missa fosse terminada. O padre saiu dali às pressas, tremendo e de olhos arregalados, como se uma febre maldita tivesse se apossado dele. Nos dias que se seguiram, foi acometido por uma estranha doença na garganta e nunca mais disse uma palavra. Tempos depois a Igreja o transferiu para uma cidade qualquer no sul – onde a umidade relativa do ar era mais alta –, com o intuito de tratar sua doença, e nunca mais se ouviu falar dele.

Os anos de faculdade e excursões pelo exterior tornaram Arlindo cético a ponto d'ele quase não mais sentir – ou ignorar inconscientemente – aquele mal-estar quando estava no interior da mansão. Mas desde que retornara, há alguns dias, as sensações malignas voltaram a perturbá-lo, sobretudo a barreira invisível na entrada, que lhe causava terríveis calafrios na espinha. Naquela tarde sentira tudo aquilo tão forte quanto o era na infância, mas a ânsia por falar com Clara não o deixou pensar a respeito ou se amedrontar.

Inexplicavelmente, todas as sensações ruins desapareceram como fumaça ao vento quando ele se aproximou da moça. E ali na cama, tão próximo dela, a sensação de paz era inédita e estava ébrio de felicidade, como só sentira muito tempo antes, nos braços de Maria. Era mais que evidente: de certa forma o amor da moça o protegia.

Clara continuava dormindo mansamente, protegida pelos anjos, e a mente de Arlindo trabalhava incessante, sem que ele pudesse evitar. Seu lado racional – regido pela Ciência – gritava contra, mas sem dúvida algo estranho acontecia naquela casa. Por anos ignorara as histórias “supersticiosas” daquela gente, mas em toda sua simplicidade eles podiam ter alguma razão. O que foi mesmo que o velho benzedor do povoado – que muitos diziam feiticeiro – disse a Flozina certa vez? Ah, sim... “A maldição só pode ser destruída por um descendente e herdeiro do velho”.

Os pássaros já cantavam anunciando a aurora. Arlindo não dormira e estava um pouco cansado, mas também muito feliz. Havia finalmente reencontrado o amor, e, no mesmo dia – ou na mesma noite –, havia também enxergado uma luz no fim do túnel... e, portando, teria muito trabalho naquela manhã e nos dias seguintes. Tomara uma importante decisão que provavelmente não agradaria muito a zelosa e conservadora Flozina. Seus lábios se alargaram num sorriso ao imaginar a careta que sua velha e querida amiga faria.

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