| HERANÇA MALDITA |
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II O sol faiscava nas vidraças da cozinha em suaves matizes e um silêncio fresco repousava no ambiente. Ouvia-se apenas o fervilhar de uma panela no fogão. Sobre a mesa, os famosos pães de batata de Flozina, recém-saídos do forno, uma broa amarelinha de fubá com um vapor delicioso, ovos mexidos, leite, café, suco de goiaba e um lindo arranjo de flores. Ambos sorriam, contentes por terem um ao outro. Lá fora, a seu pedido, os peões já haviam preparado o cavalo, para que ele seguisse rumo ao prometido. – Você irá sair a cavalo? – perguntou Flozina, apreensiva. – Sim – respondeu depois de alguns segundos –, vou até a árvore no alto da colina... estou com... saudades. Os olhos de Flozina brilharam com intensidade por alguns segundos. Depois sacudiu a cabeça com ar de desaprovação. – Não estou gostando desta idéia Arlindo. Percebendo sua intranqüilidade, ele a abraçou e acariciou seus alvos cabelos. – Deixa de besteira querida! Depois que visitar minha amada, irei à vila, mas voltarei logo e trarei um corte de tecido para você do armazém do seu Juca. – Mas meu filho – ela pronunciava meu fio –, você nunca vai ao armazém do seu Juca e... – Quero falar com ele sobre o meu avô. – Arlindo, deixe a alma do seu avô descansar em paz! – Mas é justamente isso que quero pedir a ele! No fundo, a preocupação maior de Flozina era com a visita do rapaz àquela árvore que fora tão profanada anos atrás. Temia que as lembranças pudessem feri-lo ainda mais. Não queria que ele remexesse o passado. Por outro lado, a visita à venda do Juca também não a agradava, pois se ele descobrisse alguma verdade oculta sobre o avô, talvez não fosse suportar... E Arlindo já tinha sofrido por demais com as adversidades que a vida lhe impusera até então. Era hora de enterrar o passado e olhar para o futuro. O rapaz pegou mais um pedaço de pão, tomou um último gole de café, tirou cuidadosamente uma flor do vaso e entregou a Flozina. – Essa flor é pra você, minha flor mais rara. Fique tranqüila que voltarei antes do anoitecer. Arlindo montou no cavalo e seguiu a galope. Ali, naquele vale onde a fazenda era situada, foram despertadas todas as boas e más lembranças. Maria. Maria, sua primeira namorada... seu primeiro amor... a única moça que havia realmente lhe encantado. Maria tinha lábios como a mais tenra e perfumada maça, olhos amendoados de uma ingenuidade indefinida que contrastavam com o jeito maroto de ser. O corpo era perfeito como o de uma deusa, os cabelos brilhantes e a voz semelhante a um canto de anjos... sua doce Maria. Enquanto o alazão galopava afoito, Arlindo deixava os pensamentos fazerem festa junto com o vento: Maria... Maria... A primeira vez que se amaram foi debaixo daquela árvore. Da árvore deles. Foram meses do mais puro amor, até o dia que o Sr. Justino (pai de Maria) resolveu repentinamente não permitir o prosseguimento do romance. Naquela ocasião, pairava boatos de que Arlindo havia herdado a mesma desgraça do avô e, quando completasse 35 anos, se tornaria um lobisomem. Justino era um velho tolo que acreditava em fantasmas, vampiros e lobisomens. Resolvera amputar a felicidade da única filha, proibindo-a de falar e até mesmo ver o rapaz. Maria, desesperada com a decisão do pai, correu até o local onde foram tão felizes e cravou um punhal em seu próprio coração. Arlindo cavou a cova da amada e jurou que ela, somente ela, seria o seu único amor, para todo o sempre. A rememoração da tragédia o fazia sentir um arrepio percorrendo a espinha. Arlindo sofria na tentativa de chegar até onde estava a árvore, pois sua ansiedade fazia o topo da colina parecer muito mais longe do que realmente era. No mais, a falta de manutenção durante os últimos anos, permitiu que a erosão destruísse boa parte da estrada. O sol e as esporas do cavaleiro castigavam o cavalo. As recordações faziam o mesmo com a mente ansiosa: o suicídio de Maria; o rosto pálido e o sangue escorrendo do peito de sua amada. Os dias e noites posteriores, a angustia junto à cova rasa... A tela do passado novamente se abria perante seus olhos. Gritos já há muito inexistentes invadiam seus ouvidos e imagens do passado, através de rememorações, voltavam a ressurgir. Ele relembrou que após a morte de Maria, choveu muito naquela região, tanto e tanto, que parecia ter acontecido um segundo dilúvio. A casa onde sua amada morava com o supersticioso Sr. Justino, foi tomada pela correnteza do rio que transbordara e o velho perdeu tudo que tinha. Quase na miséria e sentindo-se culpado pela morte da filha, resolveu também dar cabo da própria vida, dando um tiro na cabeça. Outra vez a desgraça acontecida no passado o fitava, retratando uma aflição sem tamanho. Ouvia – na sua mente perturbada – o gritos horrendos dos empregados: “Ele esta morto!” “O velho esta morto!” “Uma maldição baixou sobre a família!” “Pai e filha mortos!” Ali, sobre seu cavalo, muitos anos depois, a chuva e a enxurrada de sangue pareciam novamente banhá-lo. Naquele instante a tela do passado apagou e Arlindo se viu suando em cima do cavalo. O chapéu havia caído para as costas e o sol forte da manhã ardia no seu rosto. Um aroma de rosas espargia no ar. Sem muito o perceber, devido ao impacto das doloridas lembranças, chegara ao alto da colina. Estava de frente a grandiosa árvore, que espalhava majestosamente sua sombra sobre e nos arredores da lápide branca. Nada mudara. Há não ser as raízes que se tornaram ainda maiores, nada ali mudara. Arlindo sentou-se e fechou os olhos. Estava estranhamente cansado. Era como se aquela cavalgada tivesse durado horas, ou dias. Tudo em sua mente era tão estranho... intenso... e tão envolto em dores, em mistérios. No poderoso tronco da árvore – já meio cobertos pela casca que crescia – ainda estavam desenhados os nomes: “Arlindo e Maria” dentro de um coração. O desenho tinha as dimensões de um prato normal. Arlindo levantou-se, deu alguns passos e deitou no solo, onde Maria dormia há anos. Permaneceu ali, de braços estendidos na relva, como se a estivesse abraçando. Podia sentir o aroma dos teus cabelos, a pele sedosa do seu rosto, a respiração calma... “Maria, você me sente, assim como te sinto?” pensou em voz alta. “Por certo, ela sente sim!”, ele mesmo emitiu a resposta. Arlindo pegou uma rosa que estava caída no chão e a girou entre os dedos. “Como pode ter nascido rosas tão lindas neste lugar? Isso é obra tua não é, Maria?”, murmurou, abrindo um largo sorriso de cumplicidade. O sorriso se desmanchou de repente e o sal das lágrimas passeou pelos sulcos do rosto, amargando a boca. Outras lágrimas pegaram atalhos entre rugas de saudades, chegando ao chão. Naquele instante o sol se despedia. A chuva da noite voltara, molhando e fazendo surgir um delicioso cheiro de terra. O sal das lágrimas e a água que caía se misturaram, molhando todo o rosto. A chuva engrossara, caindo copiosamente em todo os espaços presentes, abafando a voz que soluçava. Apenas o chão frio os separava: o corpo dele molhado e o da amada a alguns palmos abaixo da terra. O clima reinante poderia ser de terror... mas, não... era de amor. Não havia medo aonde o querer-bem voltava em velocidade-luz. O espírito de Maria pareceu invadir-lhe a mente, mostrando claramente a Arlindo que ele devia ser feliz... E, ainda, que a felicidade estava bem próxima, dentro da sua própria casa. No mesmo instante, o rapaz pensou na moça que ajudava Flozina nos afazeres domésticos, aquela para quem ele nunca olhara de verdade, e, muitas vezes, sequer lembrava o nome. Naquele momento, Arlindo era um misto de alegria e apreensão... Ele queria acreditar, mas tinha medo. Sentia-se como um frágil canário que havia ficado preso há tanto tempo, que uma vez aberta a gaiola, não sabia o que fazer. Arlindo estivera preso na gaiola da vida, e Maria acabava de libertá-lo. Estava desnorteado, feliz, mas completamente desnorteado. Ele chorou, chorou muito! De alegria, de desalento... não sabia exatamente de que, mas ainda assim, chorou. Levou à boca um punhado da terra molhada e beijou docemente. A terra... o solo onde repousava Maria... Maria, seu amor... Com as mãos trêmulas e suadas despetalou algumas rosas e fez delas um tapete vermelho sobre a cova de sua amada. Sorriu. Gritou. Gargalhou como um insano. Misturou sua agonia ao escarlate que contrastava fortemente com a relva macia. Extravasou toda a emoção que mantivera guardada em seu coração. Abraçou a frondosa arvore, tocou suavemente o tronco majestoso, pontilhou os dedos sobre o desenho quase apagado do coração... ali estavam seu nome e o de sua amada, desenhados por ele há tantos anos. A mulher que um dia foi dele de corpo e alma... A mesma mulher que em espírito dizia para ele ser feliz... A mulher que entregou o coração, o corpo, ao desejo que a fez plena para ele e que o recebeu plenamente também. Arlindo despediu-se do lugar, prometendo voltar ali apenas quando estivesse realmente inteiro. Naquele momento, ainda se sentia em pedaços. E assim subiu em seu cavalo, afoito para voltar à fazenda. Precisava ver, precisava sentir, precisava olhar nos olhos de Clara! Sim, finalmente lembrara, seu nome era Clara! E prometeu em silêncio a si mesmo que jamais esqueceria aquele nome outra vez. Não entendia porque antes não prestara atenção naquela moça linda, que já há algum tempo trabalhava em sua casa com Flozina. Seria obra da estranha magia que permeava aquela velha mansão? Não iria passar mais no armazém de seu Juca para tirar satisfações. Ficaria para outro dia, ou mesmo para nunca. O que importava os comentários sobre as malvadezas de seu avô, diante da possibilidade real de refazer sua própria vida? De nada lhe importava as histórias mal-contadas, ou se essas tinham algum fundo de verdade ou não. Iria enterrar tudo aquilo, juntamente com as lembranças de qualquer episódio que o fizesse infeliz. Iria relembrar somente as coisas boas, as tardes ensolaradas, os beijos ardentes de Maria e a possibilidade de ter novamente uma mulher em seus braços para compartilhar o grande amor que ainda tinha em seu coração para ser oferecido. No caminho para a fazenda, ficou pensando em Maria, ficou pensando em Clara. Não fosse a primeira, iria alguma vez olhar para a segunda com olhos de homem? A achava tão moça, tão tímida... mas não podia se dizer indiferente ao perfume dela... não, isso não! Clara sempre lhe chamou a atenção pelo cheiro de flores... de rosas propriamente ditas... mas, ainda assim, devido ao amor por Maria, ele não dava atenção. Arlindo queria voar, queria sair daquela gaiola que o destino o colocou e Maria o libertara. Queria ser livre. Livre para amar outra vez. Livre para sair do luto. Livre para nunca esquecer Maria e livre para entregar-se a Clara de corpo e alma. A entrega seria carnal e espiritual, assim como experimentara um dia. CONTINUE LENDO: HERANÇA MALDITA PARTE III
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