| HERANÇA MALDITA |
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Participação: Elisbeth Vasques
Foto obtida no Flickr através de uma licença Creative Commons, cujo autor é Zesmeralda
I A sala tinha um ar antigo. Uma grande janela abria para o jardim frontal, onde rosas vermelhas contrastavam com a folhagem verde. Pedaços de sol faiscavam nas gotas d’água que corriam entre as pedras que circundavam o chafariz e iam criando um pequeno riacho. Da sala – que na verdade era um amplo salão – conseguia-se ouvir o canto dos pássaros e sentir o aroma perfumado que vinha dos jardins. O múltiplo canto de pássaros trazia uma paz intensa, aquela paz interior que todos almejam. Ele foi até à janela; ficou a olhar o jardim e, de repente, murmurou: – Quanta glória esses jardins já testemunharam! Seu olhar melancólico buscou um ponto no alto da colina distante e encontrou a silhueta da velha e frondosa árvore, que resistiu bravamente aos anos e ainda margeava a estrada. A via de acesso à mansão – castigada pela implacável erosão – serpenteava solitária colina abaixo, até circundar o chafariz do jardim. – Ainda estará lá? – ele tornou a murmurar, lembrando-se dos tempos áureos. Sua memória o levou àquela tarde ensolarada, em que timidamente deram o primeiro beijo sob a sombra aconchegante; quando usou o canivete – presente do seu pai – para desenhar seu nome e o dela dentro de um coração, no poderoso tronco secular. Fez-se silêncio. Apenas o relógio na parede emitia o monótono tique-taque naquele momento. Sentiu um doce calor envolver-lhe o corpo, como que restaurando o amor de outrora. A cena que via em pensamentos pareceu-lhe ganhar vida. O deitar na relva. O namoro que se iniciou sobre aquelas raízes que brotavam do chão... Doce e suave memória, traduzida em saudade, que ainda tinha o dom de se agitar no peito, reproduzindo cheiros e cores de um tempo ido, mas ainda tão presente. E o ontem se projetou a sua frente, vivo palpável. Era como sonhar acordado, revivendo as lembranças de outrora, que o deixava extasiado. Parecia real e ele não queria sair daquele momento único. Era a plenitude de reviver o passado, como se fosse presente. Era êxtase absoluto voltar aos tempos que seus pequenos sonhos, eram realidade, e tudo aquilo o inspirava, mais e mais. Decidiu que na manhã seguinte iria até a árvore. Conquanto longos anos tivessem passado, ferira profundamente o tronco e o desenho ainda haveria de estar lá. Naquela noite não conseguiria dormir. Sentia algumas portas da alma, há tempos fechadas, abrindo-se novamente. O coração batia acelerado. Já há algumas horas havia apagado as luzes da casa, mas o sono não vinha. Pressentia algo estranho. Desceu as escadas vagarosamente. O gato que dormia no sofá acordou assustado e emitiu um miado estridente. Lá fora estava muito escuro, mas a luz tênue da lua minguante permitiu que ele enxergasse a silhueta de uma pessoa rondando o jardim. Apanhou o paletó rapidamente e saiu. O caseiro, olhando-o com alivio, disse: – Foi bom o senhor ter vindo, patrão. Desde ontem, ao cair da noite, alguém ronda a casa. – Você não conseguiu identificar a pessoa? – Não, senhor! – Bem, provavelmente foi algum ladrão, pois a casa está cheia de objetos antigos e de grande valor comercial. – É, pode ser... mas... – Há colecionadores inescrupulosos – ele interrompe o caseiro – que ceifariam vidas pelo que tem aqui. – É verdade, senhor... mas... O misto de medo e constrangimento no olhar do caseiro o deixou intrigado. – Quer dizer mais alguma coisa, José? – Senhor – o homem estremeceu –, algumas pessoas do povoado dizem que é a alma do seu avô, que ainda ronda por aqui. – Isto é besteira, José! – ele vociferou, meio irritado meio divertido com a ignorância do homem simples. – Desculpe, senhor... mas, é gente séria quem o diz. – E quem é essa “gente séria”? – O seu Juca, do armazém. – Ele realmente é um homem sério, porém, isso não passa de besteiras... superstições tolas! Boa noite, José! – ele deu por encerrada a conversa. – Boa noite, senhor. O velho caseiro desapareceu na escuridão e ele adentrou a varanda. Não sentia sono. Sentou-se na confortável cadeira de balanço e deixou sua memória viajar... Não conhecera o avô, mas sua fama na região era terrível. Diziam que, por ser um homem rico, o velho mandava e desmandava na região. Tinha vários “capitães do mato” sob seu soldo, de forma que torturava e assassinava cruelmente os infelizes escravos que se rebelavam ou não cumpriam suas ordens a contento. Ninguém se atrevia a dizer em voz alta, mas corriam alguns sussurros que, naqueles tempos sem lei – ou que valiam as leis dos mais ricos –, uma boa parte das terras do velho foram arrancadas à força dos fazendeiros mais pobres. Contudo, correu de geração pra geração que, numa noite de lua-cheia, seu avô fora visto pela última vez: estava meio alcoolizado e esporeava o cavalo rumo à fazenda. Nunca mais o velho foi visto vivo. Desapareceu de repente, de forma misteriosa, sem deixar nenhum vestígio e nem o cavalo foi encontrado. Corriam vários boatos sobre ele: uns diziam que ele era tão ruim, que o demônio o havia levado em vida, outros diziam que ele virou lobisomem e nas noites de lua-cheia perambulava pela região, se alimentando dos animais recém-nascidos. Outros ainda diziam que seu fantasma percorria os pastos, montado no esqueleto de seu cavalo. Contudo, a teoria do rapaz era bem mais simples e racional: o velho fora assassinado e enterrando num canto qualquer daqueles imensos pastos, por um ou outro dos seus vários inimigos. Desaparecera há quase 80 anos. Na manhã seguinte, quando fosse até a colina, iria dar uma esticada até o armazém do seu Juca. Que diabos esse homem tinha que continuar espalhando tais estórias estapafúrdias? Por anjos ou por demônios, aquele velho asqueroso já havia sido julgado, e devia permanecer enterrado junto ao maldito passado daquela família. Entre pensamentos, ficou a observar o quarto de lua e a escuridão. Por que sua mente fervilhava tanto? Tudo começou com a lembrança suave da frondosa arvore que continha muito da sua vida, do amor perdido e por último não parava de pensar em seu maldito avô. Um cheiro acre de terra mofada e um odor amoníaco de cadáver subiram-lhe às narinas. A coisa estava na sua mente, mas refletia no físico. Um relâmpago distante rasgou a escuridão, anunciando chuva. Ele concluiu que seria insensato falar para alguém o que acabara de pensar, o melhor mesmo seria deixar aquele passado bem enterrado. Ele tinha o mesmo nome do velho. O avô atendia por Arlindo Gutierrez e ele Arlindo Gutierrez Neto. Estaria o avô querendo lhe dar algum sinal? O inferno não teria sido forte o bastante para segurá-lo? Por um instante teve vontade de arremessar contra o jardim a cadeira na qual estava sentado. Maldito velho! E ainda por cima teria que carregar o nome daquele malfeitor, como sendo seu próprio nome, pelo resto da vida. Arlindo não tinha certeza se o que o acordara fora o tique-taque do seu relógio de bolso ou o delicioso aroma de café fresco. Ele sacudiu a cabeça para espantar o resquício de sono, levantou-se rapidamente e rumou para o banheiro. Quase caiu, ao se escorregar numa pequena poça d’água no assoalho de tábuas corridas. Esquecera a janela aberta. Adormecera na velha cadeira de balanço – um dos seus brinquedos quando criança –, na extensa varanda frontal da velha mansão. Só fora despertado na alta madrugada, pelo vento frio que fustigava seu pijama de seda e alguns pingos de chuva. As gotas eram ralas e aleatórias, mas grossas o suficiente para deixar uma umidade gelada nas suas vestes. Entrara rapidamente na casa, trancara bem a porta, mas esquecera de fechar a janela do seu quarto, no andar superior. Olhava na penumbra a pequena poça no chão, o pijama ainda úmido pendurado no encosto da poltrona – dormira nu – e as cortinas pesadamente encharcadas. – Flozina vai me matar – murmurou, antecipando a bronca da sua querida ama. – E com toda razão! Como cuidara tão bem de seu pai, Flozina sempre cuidou também dele e dos afazeres internos da mansão naqueles anos todos. Em verdade, não tinha medida o carinho que sentia pela velha ama, pois fora ela que praticamente substituiu sua mãe, quando essa faleceu, vítima da maldita tuberculose. Ele não precisava dos retratos a óleo esparramados pelas paredes da casa para lembrar da mãe, muito pelo contrário, poucas vezes os olhara. Era em sua memória que repousava as mais belas lembranças. Na época, com apenas 10 anos, não entendia por que a maldita doença era capaz de levar à morte uma mulher tão linda e cheia de vida, aos plenos 30 anos de idade. Mas levara. Levara aquela jovem de cabelos negros como uma cascata de ébano... de olhos azuis como o céu de setembro... de sorriso iluminado, que clareava tudo ao redor. A maldita doença levara sua mãe. E fora a jovem Flozina, esposa do peão José – amigo inseparável de seu pai –, que o acolhera nos braços, criando-o e educando como se fosse seu próprio filho. Os anos foram passando e o casal descobriu não poder ter filhos legítimos, sendo assim, dedicavam a Arlindo todo seu carinho, afeto e amor – sobretudo Flozina. Isso tranqüilizava seu pai, quando precisava fazer suas longas viagens de negócios. Embora sempre meio perseguida pela sombra do sanguinário avô e abatida pelos fatos trágicos que surrupiaram a vida de sua mãe, sua família tivera tempos de paz e felicidade. Aos 12 anos, quando José o ensinava a domar o primeiro potro, esse o jogara no chão, fraturando também seu primeiro osso. Flozina ficara quase um mês sem falar com o marido. O pai de Arlindo, agradecido por tantos anos de dedicação e amizade, mandara lavrar e assinara a escritura de vinte alqueires das terras mais produtivas da fazenda – terras de várzea, às margens do rio São João. José e Flozina se tornaram os novos proprietários daquelas terras e de três dúzias de cabeças de gado e outros tantos animais, às suas escolhas. Não obstante, os dois continuaram fiéis à família de Arlindo, negando-se a abandonarem a velha sede. José – vítima da artrite e tantos anos de labuta pesada – já não era mais capaz de grandes esforços físicos, mas, ainda assim, cuidava dos jardins e distribuía ordens aos peões, no tocante ao resto da propriedade. Flozina, com a ajuda de uma jovem, muito bonita por sinal – cujo nome ele nunca lembrava, mas sabia tão bonito quanto a dona –, cuidava do interior da mansão, deixando-a sempre impecavelmente limpa e polida. Ainda prostrado sobre a poça d’água, Arlindo sacudiu a cabeça para espantar os devaneios e se dirigiu à janela. Empurrou as cortinas – muito pesadas devido à umidade da chuva noturna – para os lados e contemplou o céu azul, enquanto o sol invadia o quarto, fazendo subir um calor gostoso pelas suas pernas nuas. Por alguns instantes, ficou hipnotizado pelos pequenos pontos negros voando em espirais, tendo o azul majestoso como fundo, na mais perfeita demonstração de liberdade. Ele baixou o olhar e enxergou contra o sol a silhueta da velha árvore, no topo distante da colina. Lembrou-se da promessa noturna de visitar a árvore. Inspirou longamente o ar matinal, em seguida dirigiu-se ao banheiro, se barbeou, aparando cuidadosamente o cavanhaque – que ela amava – e tomou uma chuveirada rápida. Bastante estimulado pela água fria, se vestiu e finalmente desceu a enorme escada de madeira envernizada – que como tudo ali, parecia ter envelhecido além do normal, e rangeu sob o peso das suas botas de montar –, rumo ao delicioso café da velha Flozina, cujo aroma já impregnara toda a casa. CONTINUE LENDO: HERANÇA MALDITA PARTE II
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