| EVOLUÇÃO MACABRA |
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X Paralelamente a tais acontecimentos, era anunciado nos principais meios de comunicação que várias pessoas, na maioria jovens, morreram eletrocutadas misteriosamente, em frente de seus microcomputadores em diversas partes do mundo. Órgãos de investigação de todos os países afetados se uniram numa força-tarefa multinacional, entre esses, a Polícia Federal brasileira. Como algo daquela natureza impossibilitava o anonimato, a notícia das mortes foi divulgada em todos os maiores telejornais do mundo, inclusive nos noticiários da glamourosa Paris. Martih, o agente brasileiro encarregado do caso, descobriu naquela semana que todas as vítimas eletrocutadas eram cadastradas no site karah.secret.com, uma página de conteúdo aparentemente inocente, mas dedicado a alguns tipos específicos de freqüentadores, como góticos, dark-boys, amantes de terror, adoradores das trevas e afins, em sua grande maioria, adolescentes. Indo mais a fundo, o policial chegou ao criador do site, onde leu pela primeira vez o nome: Carlos Eberli. Não menos macabra foi a descoberta de cadáveres mutilados numa vala às margens de um rio, no interior de Minas gerais. “SITUAÇÕES EXTREMAS EXIGEM MEDIDAS EXTREMAS! PARE A INVESTIGAÇÃO, OU A PRÓXIMA PÁGINA DA SUA VIDA SERÁ ESCRITA COM SANGUE... O SEU SANGUE!”, foi a mensagem que Martih encontrou no seu endereço de e-mail. Não havia qualquer remetente. Ao clicar para deletá-la, a tela emitiu um clarão prateado e se apagou de repente. O terminal de computador sobre sua mesa no QG da Policia Federal estava reiniciando. Acreditando se tratar de mais um hacker maluco – eles vivem invadindo o sistema e estão cada vez mais ousados –, Martih nem se abalou com a mensagem enigmática. Prosseguiu com seu plano de procurar os pais de Carlos, uma vez que o site karah.secret foi criado e era mantido pelo garoto. Em caso de alguma implicação dele nos crimes misteriosos, por ser menor de idade, seus pais seriam os responsáveis.
XI A reportagem no noticiário da tevê francesa chamou a atenção de Joanna. Ela almoçava num simpático bistrô em frente ao Louvre – onde estivera várias vezes com Gabriel, durante sua lua-de-mel. “Il augmente ê volume, svp?”, pediu ao garçom, num francês fluente. Com um “oui, madame”, o solícito rapaz rodeou o balcão e aumentou o volume da tevê. A reportagem continuava falando das mortes misteriosas em frente a computadores em várias partes do mundo. Um carro com o som extremamente alto – jovens têm tais costumes no mundo inteiro – passou em frente ao bistrô, quando Joanna pareceu ter ouvido o nome da sua pequena cidade interiorana, mas não pôde ter certeza. Seu coração de mãe, no entanto, pareceu grande demais dentro do peito e seu sexto sentido a fez pronunciar para si mesma: “Carlos”. Levantou-se da mesa em que estava, ao ar livre, e caminhou com pernas trêmulas até o balcão, onde poderia ouvir melhor. “Il est tout ê bon, Madame?”, indagou o garçom, amparando-a gentilmente. “Oui! Oui!”, respondeu aflita, se segurando na borda do antiguíssimo balcão de carvalho. A reportagem continuava e mostrava uma breve entrevista coletiva do agente da polícia federal brasileira responsável pelas investigações; esse não falava coisa com coisa, procurando se livrar rapidamente dos insistentes repórteres. Pelo que a escritora pôde entender, o agente não falava das mortes distantes, mas sim de acontecimentos locais. Ouviu de olhos arregalados que, igualmente misteriosa, foi a macabra descoberta dos cadáveres de três jovens numa vala às margens do rio Anzol Quebrado, não muito longe de Monte Azul. Esses estavam desfigurados e mutilados, com horrendos implantes metálicos expostos, que imitavam o formato de órgãos humanos. Por serem menores, as fotos não puderam ser divulgadas na íntegra, mas Joanna – lívida como um cadáver – acabou prevendo o pior e desfaleceu numa cadeira que lhe havia sido oferecida. O agente dissera que aquele era um caso isolado e nada tinha a ver com as outras mortes. Mas, pro inferno a opinião do agente! Segundo o repórter da tevê francesa, o achado macabro tinha se dado naquela manhã, e ela havia falado com Gabriel ao telefone na noite anterior. Lembra de tê-lo sentido um pouco tenso, mas, interpelado, seu amado dissera ser apenas cansaço. Com certeza era paranóia dela... estava tudo bem. Mas... Com passos trôpegos, Joanna caminhou até a mesa em que estivera anteriormente. Era verão em Paris e o clima estava agradável, contudo, ela já não mais se dava conta disso. Seu coração estava gelado. Procurou o celular na bolsa e teclou o número da sua casa, em Monte Azul. Embora a ligação tenha sido completada e atendida do outro lado, só ouviu estática e um zumbido metálico. “Malditos celulares!”, vociferou para si mesma. Enquanto a tevê apresentava coletivas dos responsáveis pelas investigações por parte do FBI, Scotland Yard, Interpol e outras potências de manutenção da lei, cujos países tiveram cidadãos mortos misteriosamente, Joanna levantou-se, deixou uma cédula de euro – bem acima do valor consumido – sob a taça de água mineral e seguiu a passos largos pela calçada, quase se esbarrando num carrinho de bebê. Suas pernas haviam recuperado a firmeza e apenas suas mãos tremiam. Enquanto caminhava apressada para o suntuoso hotel Berceau dês Anges, há apenas duas quadras dali, buscava na memória os horários de vôos da Air France para o Brasil. Contudo, sua mente tumultuada não lhe permitia raciocinar com clareza. Enquanto fazia as malas, usou o telefone do quarto para ligar novamente. O celular de Gabriel chamou em vão, até cair na caixa postal. Desligou e discou o número da sua casa. Uma voz feminina atendeu do outro lado. Provavelmente mais uma das simulações que Carlos programava na secretária eletrônica, pensou desconsolada. A gravação foi interrompida pela voz familiar de Gabriel. Esse tentou tranqüilizar a esposa, dizendo que estava tudo muito bem e que não havia necessidade d’ela interromper a viagem, afinal, ainda tinha alguns países da Europa para visitar e alguns castelos para pesquisar. Mas, conquanto fosse parecida, a voz do outro lado da linha estava diferente da do seu marido: era artificial, pronunciada friamente, em intervalos calculados e num português perfeito, desusado em conversas informais. Fosse quem – ou o quê – fosse, aquilo não era seu marido. Não tinha nem sinal do seu costumeiro tom carinhoso. Perguntou de Carlos e a voz disse que ele havia saído com amigos. Carlos não tinha amigos!, Joanna quase gritou, mas achou melhor conter-se apenas no pensamento. “Ainda pretende levar-me para uma segunda lua-de-mel na cabana?”, ela indagou, com voz sensual. “Claro, assim que você retornar, afinal amamos aquele lugar”, a voz respondeu friamente do outro lado. Joanna odiava a cabana. Tipicamente urbana, ela detestava mato, pois tinha alergia a picadas de insetos, e, sobretudo, odiava aquela cabana! Não voltara lá desde que Carlos, aos seis anos, fora picado por uma cascavel. Ainda podia reviver o desespero que sentiu, estando há horas da civilização e do soro antiofídico. Também lembra de como o grande réptil, de forma inusitada, auto-incendiou e virou carvão quase instantaneamente. Nas suas pesquisas como escritora, havia esbarrado em relatos de combustão espontânea, mas nunca se interessou realmente pelo assunto... ou inconscientemente tinha medo de descobrir algo de que não gostasse. Ainda se lembra do alívio e de ter agradecido aos anjos, pois, misteriosamente, Carlos não sentiu ou sofreu absolutamente nada, como se a grande e mortal dose de veneno fosse inofensiva. Realmente, aquela coisa do outro lado da linha não era Gabriel, pois seu marido era ciente de tal fato e do seu pavor àquele local ermo. Pagou a conta na recepção e tomou o táxi – que lhe havia sido providenciado pelo hotel – rumo ao aeroporto Charles de Gaulle.
XII Quando Martih chegou a casa de Gabriel, percebeu de imediato que essa estava em reformas. Havia inúmeros operários, com suas pás e carriolas, transportando cimento e outros materiais para cá e para lá, além de um número exagerado de caminhões basculantes, transportando uma quantidade exagerada de entulho, bastante anormal para uma residência – ainda que fosse uma mansão das dimensões da dos Eberlis. Gabriel recebeu o homem com um ar desconfiado, sobretudo após esse mostrar suas credenciais da Polícia Federal. Martih foi direto ao assunto e informou que estava investigando crimes de informática e múltiplos homicídios, que acabaram por levá-lo a seu filho. Gabriel, ao rememorar a barbaridade coletiva que vira no telejornal, pareceu menos surpreso do que o agente esperava. Só após alguns segundos, a ficha caiu e o cientista demonstrou certa estupefação. Gabriel empalideceu e começou a gaguejar, olhando furtiva e insistentemente para o interior da casa em reformas. Após articular uma desculpa qualquer para um engenheiro que estudava projetos sobre uma mesa improvisada no jardim frontal, Gabriel convidou Martih para uma conversa. Mas essa tinha que ser longe dali, num local mais tranqüilo e... “seguro?” Optou por levar o agente à sua sala no complexo laboratorial da BRAND & CLARK CORP. Lá, não poderiam ser interrompidos ou... “ameaçados”, nem mesmo por quem ele mais temia naquele momento. O perspicaz agente Martih não pôde deixar de notar os tremores nas mãos do cientista, enquanto esse dirigia, tampouco as profundas olheiras, que demonstravam cansaço e noites mal-dormidas – ou não dormidas. A barba por fazer e as unhas grandes e maltratadas davam um ar de completo desleixo, que incutia ao cientista um aspecto de desespero e mais idade do que ele realmente tinha. Cientistas... todos com sua parcela de excêntrica loucura, pensou divertido. Gabriel já não estava mais suportando toda aquela pressão, sobretudo após ter lido e ouvido a noticia sobre as mortes misteriosas de pessoas, “a maioria jovens”, em frente a terminais de computador em várias partes do mundo. Mais de uma vez, tinha presenciado os “pequenos milagres” que seu filho vinha realizando. No início, seu lado cientista ficara maravilhado e seduzido, mas à medida que os milagres foram metamorfoseando do divino ao nefando, seu lado humano retomou o controle. Ao ouvir Martih dizer que as investigações apontavam para seu filho, ficou momentaneamente assustado, mas em seguida usou da sua costumeira coerência e razão, pois aquilo era apenas a confirmação das suas suspeitas. Assassinatos ele não podia admitir! Se seu filho estava mesmo implicado, era acima de tudo seu dever de pai e cidadão cumpridor das leis deter o rapaz. Conquanto seu amor de pai resistisse, não podia mais negar o óbvio: aquele ser que habitava o quarto do seu filho, não era Carlos, não o era mais... não era sequer humano. Precisava detê-lo, mas sabia não ser capaz de fazê-lo sozinho, por isso resolveu abrir o jogo e contar tudo que sabia ao agente. Somente uma coisa naquilo tudo trazia certo alívio ao coração de Gabriel: Joanna não estava ali... estava momentaneamente protegida pela inocência. Sua sala na Brand & Clark era ampla e confortável. A decoração era moderna, em suaves tons de creme, verde-água e branco e uma janela panorâmica dava para o arborizado estacionamento dos executivos e funcionários do alto escalão, como ele próprio. À frente tinha a espaçosa porta de entrada e ao fundo uma porta menor dava num corredor que levava direto ao seu equipadíssimo laboratório. Sua secretária, a sardenta Srta. Letícia – uma pretensa poetisa, extremamente viciada em Internet –, que fazia hora-extra, estranhou a presença do chefe e do outro homem ali, àquela hora, em que normalmente ele já estaria em casa. Mas era discreta e tratou de conter a curiosidade. Gabriel se serviu de uma boa dose de uísque – estava precisando – e tamborilava os dedos sobre a grande mesa, enquanto esperava o agente federal retornar do banheiro. Martih, ao retornar, recusou a bebida dizendo que não bebia quando estava em serviço. Seus olhos experientes captaram o crescente nervosismo do cientista, cujos tremores faziam as pedras de gelo se chocarem constantemente, produzindo um barulho característico. Gabriel tomou um longo gole da bebida, afrouxou o nó da gravata e respirou fundo, finalmente reunindo coragem para relatar os fatos ao agente. Este ouvia atento e ficava mais e mais boquiaberto a cada palavra. Parecia estar presenciando a leitura de um roteiro de ficção científica. Contudo, quando a narrativa chegava ao ponto em que os poderes de Carlos se manifestaram pela primeira vez, os potentes autofalantes do computador da mesa de Gabriel começaram a emitir um zumbido agudo. O terminal estava em stand-by e o logotipo dourado da Brand & Clark Corp. dançava aleatoriamente sobre o fundo preto da tela. O zumbido – que já brotava de todo o sistema de som – aumentou rapidamente de intensidade e parecia reverberar por todo aquele andar do prédio, causando extremo desconforto aos tímpanos e obrigando os dois homens a levarem instintivamente as mãos aos ouvidos. A tela do monitor de 17 polegadas se iluminou e o logotipo da Companhia foi substituído por um belíssimo rosto feminino, de cabelos ruivos e olhar azul-brilhante. O instinto de sobrevivência de Martih fez com que ele cambaleasse na direção de Gabriel, mas já era tarde. O cientista estava em convulsão sobre sua cadeira giratória e do seu nariz e ouvidos escorriam grossos filetes de sangue. Um pedaço da sua língua – decepado pelos dentes cerrados – saltou para frente, caindo sobre a mesa, em meio ao uísque derramado. O sangue escorreu abundantemente, tingindo o terno, igualando camisa e paletó à gravata vermelha. Estranhos raios de luz prateada se projetavam da máquina e erguiam o corpo já sem vida de Gabriel, fazendo-no rodopiar no ar, pouco mais ou menos cinqüenta centímetros acima da cadeira, numa cena dantesca. O olhar da bela mulher havia mudado e sua expressão era terrivelmente maligna. Seu rosto crescera até quase tomar toda a tela do monitor, sua expressão endurecera e ela gargalhava histericamente, como uma bruxa. O som proveniente das gargalhadas era aquele zumbido metálico, terrivelmente amplificado, e já fazia os músculos de Martih vacilarem e tremer como gelatina. A ampla janela da sala explodiu, arremessando estilhaços por vários metros do espaçoso estacionamento. O corpo de Gabriel foi arremessado contra a parede e tombou no carpete, desarticulado como um boneco de pano, horrivelmente tingido de vermelho. Os raios prateados haviam tomado forma de tentáculos e se esticavam na direção de Martih, enquanto o rosto desfigurado pelo ódio continuava gargalhando na tela do monitor. Num gesto instintivo, o agente sacou a pistola do coldre sob a axila e disparou três vezes. O primeiro projétil atravessou um dos tentáculos de luz e se alojou na parede, arrancando lascas de reboco; o segundo atravessou a sala e despedaçou o aquário, espalhando estilhaços de vidro, água e saltitantes peixes ornamentais por sobre o carpete. O terceiro projétil, porém, atingiu em cheio o monitor, que explodiu, emitindo uma pequena nuvem de fumaça cinza-azulada e um feixe de faíscas saltitantes. A gargalhada eletrônica se transformou num grito horrível de agonia e o cérebro de Martih parecia vibrar com a ressonância. O sangue começou a escorrer das suas narinas e, décimos de segundo antes de perder os sentidos, ele reuniu seus últimos resquícios de energia e – num esforço hercúleo – saltou através da enorme janela quebrada. Em meio a estilhaços, o corpo do agente rolou sobre o toldo de acrílico azul – que protegia do sol a janela do térreo – e caiu sobre os arbustos do jardim. Sem sentidos, não saberia jamais que foram esses detalhes que o salvaram de quebrar o pescoço na queda. No andar superior, jaziam dois corpos sem vida: Gabriel e Letícia, ambos ensangüentados e com os órgãos internos misteriosamente carbonizados. O mesmo havia sucedido aos dois guardas na portaria daquele prédio da Brand & Clark Corp. Exceto o cientista, que estava num canto da sua sala, todos estavam em frente a terminais de computador.
XIII John Armstrong, como Gabriel e outros cientistas da sua categoria, possuía uma sala de visitas diretamente ligada ao seu próprio laboratório por um corredor particular. O americano era um recluso por opção e vivia para o trabalho, de forma que quase nunca saia do prédio. Ao invés de ter uma casa para onde ir aos finais de tarde, como os outros funcionários, adaptara uma cama e outros indispensáveis na sua sala particular, transformando-a numa espécie de conjugado e preferia descansar ali mesmo. Praticamente não tinha vida social e, embora fosse freqüentemente convidado pelos colegas para festas e coquetéis, nunca comparecia. Quando conseguia algum tempo, fazia suas refeições na cantina da Brand & Clark ou mesmo numa churrascaria as margens da rodovia, há cerca de 10 km da Companhia, mas na maioria das vezes se alimentava de congelados. Seu forno de microondas era um quebra-galho formidável. Naquela noite, estava particularmente perturbado pelas recém descobertas sobre o filho do seu colega e único amigo no mundo, de forma que precisou sair para esfriar a cabeça. Foi jantar na “sua” churrascaria – apreciava a picanha mal-passada, quase sangrando –, e depois passaria na loja de conveniências para comprar mais congelados, uma vez que seu pequeno freezer estava vazio. Na ânsia de relaxar e se livrar daqueles pensamentos que o atormentava, abusou da cachaça – adorava aquele destilado nativo a base de cana – e só acordou quando o guarda do posto de gasolina bateu na janela da sua pick-up. Esse já o conhecia e ficou preocupado, por nunca tê-lo visto anteriormente naquelas condições. Após tranqüilizar o guarda, o cientista se dirigiu ao banheiro, onde enfiou o indicador na garganta e vomitou tudo que estava no estômago. Lavou o rosto avermelhado com água fria e pingou do colírio que sempre levava no bolso. Em seguida sentiu-se melhor e, sem comprar nada do que precisava, entrou na pick-up e deu partida no motor. O relógio digital no painel do veículo marcava 01:01. Enquanto percorria os pouco mais ou menos 10 km até a Brand & Clark, o Dr. Armstrong tentava se livrar do mal-estar fazendo a mente pegar no tranco. Dissera a Gabriel que se manteria afastado do caso Carlos, mas na verdade não sabia se seria capaz de fazer tal coisa. Além da curiosidade científica – que o corroia em demasia –, ouvira sobre aquelas mortes misteriosas ligadas a computadores em várias partes do mundo, e, após ter testemunhado os catastróficos poderes do adolescente, não tinha dúvidas da causa daquela tragédia coletiva. Estava num dilema: seria antiético esconder aquele caso das autoridades, mas se o revelasse, cairiam sobre o rapaz como um bando de abutres, não permitindo que ele ao menos pudesse se aproximar do filho do seu amigo. Tinha certeza que era tarde demais para tentar reverter o processo de deformação de Carlos, esse já havia se tornado um monstro fisicamente e, se estivesse certo em suas suspeitas, mentalmente também. Mas, precisava tentar... em nome da amizade que nutria pelo pai do rapaz, precisava tentar! A ética que fosse para o inferno! No mais, já não tinha atropelado a ética antes? Era considerado um gênio da engenharia genética pela comunidade cientifica internacional, contudo, eles ainda o considerariam assim se soubessem do seu passado? Os olhos vermelhos do cientista ficaram marejados e uma lágrima teimosa escorreu, parando no seu espesso bigode. Quanta saudade da sua amada Agatha! Com todo seu gênio científico não fora capaz de evitar a demência e falecimento da sua jovem esposa. Tampouco conseguiu terminar o processo de cloná-la, conquantas tentativas tenha feito. Tentara as escondidas, a revelia dos seus colegas e da sua maldita ética, cujo propósito serve apenas para atravancar a evolução da ciência. Mas aqueles vermes escrupulosos descobriram suas experiências e o impediram, cremando os restos mortais de sua Agatha, que ele mantia conservados no nitrogênio. Dera muito trabalho desenterrar sozinho o corpo da esposa naquela noite e transportá-lo até o laboratório, mas as dificuldades não importavam, somente importava o fato de ter sido acusado de necromancia pelos seus colegas imbecis. Não fossem eles, ele teria conseguido, como fez com aqueles chimpanzés meses depois. Deram lhe escolhas: se demitir e sair dos Estados Unidos ou ser denunciado e ter a licença cassada e nunca mais exercer sua amada profissão. Foi quando ingressou na Brand & Clark Corp. e, após três anos na matriz da Corporação no Canadá, foi transferido para a filial brasileira. Transformara-se, desde então, num ermitão, só vivendo para o trabalho e a memória da sua amada. Ainda conservava uma mecha dos seus cabelos loiros... Na ocasião da sua chegada ao Brasil, conhecera um jovem e promissor estagiário, de cérebro brilhante e sonhos avultados, como ele mesmo fora na mocidade. O jovem Gabriel se tornara seu único amigo. E o destino novamente lhe impunha escolhas. O guarda da portaria cochilava na guarita e mal notou quando o Dr. Armstrong se aproximou. Levantou meio a contragosto – o maldito computador havia dado pane e ele não poderia transar com Mynd pela Internet. Maldito monstro eletrônico, pensou ao se aproximar do recém chegado. Após mostrar identificação, o cientista foi liberado e dirigiu sua pick-up para o estacionamento, 1 quilômetro adentro. Antes mesmo de se aproximar do prédio, notou as luzes piscando e as janelas quebradas. Os estilhaços de vidro rangiam sob as solas dos seus sapatos, mas o velho cientista sequer notava, olhando quase hipnotizado os estragos nas janelas de todo o 1º andar do prédio onde ficava a maioria dos laboratórios de pesquisa. Observando tudo ao redor, notou boquiaberto quando um vulto se mexeu à sua direita, em meio aos arbustos do jardim. Sem raciocinar, correu até o vulto, acreditando ser um dos guardas. “Quem é você?”, perguntou alarmado ao estranho que já cambaleava na sua direção. “Calma! Sou agente federal”, o homem respondeu. Após as devidas identificações, o agente resumiu os estranhos acontecimentos de horas antes e ambos se encaminharam apressados para a portaria do prédio. A espessa porta de vidro fumê – que milagrosamente permanecera intacta – estava trancada e, após baterem até doer as mãos, constataram que não havia ninguém lá dentro – ao menos ninguém vivo. O agente olhou significativamente para o cientista e correu até a caminhonete desse, que estava parada há cerca de 20 metros dali, com a porta aberta e o motor ligado. Engatou a 2ª marcha e jogou o veículo contra a extensa porta de vidro temperado, estilhaçando-a em milhões de pequenos cacos. Ao se aproximar do balcão da recepção, Martih viu os guardas mortos sobre as cadeiras giratórias. Os terminais de computador mostravam os logotipos dourados da Companhia dançando aleatoriamente sobre fundos negros, mas os vários monitores das câmeras de segurança mostravam os arredores do estacionamento e os corredores internos do prédio, cujas luzes piscavam, alternando entre a claridade e penumbra. Quando o Dr. Armstrong se aproximou dos guardas, tomando-lhes os pulsos – entre sangue e tecidos carbonizados –, Martih já subia os dois lances de escada que davam no 1º andar. De arma em punho – mais por hábito que por necessidade – ele correu sobre os estilhaços de vidro dos lustres, até a pequena recepção da sala de Gabriel. A sardenta Letícia jazia tombada para frente, debruçada sobre a mesa; um macabro tom escarlate havia substituído o branco e azul marinho do seu uniforme. Quando o agente dava as costas à morta para retornar à recepção do prédio, o sistema de som pareceu ganhar vida. Num breve olhar, Martih viu o logotipo da Brand & Clark desaparecer e o lindíssimo rosto feminino tomar seu lugar. Ele já conhecia bem os efeitos daquilo tudo e – embora todo seu corpo doesse horrivelmente – disparou a toda velocidade corredor afora. O zumbido agudo já atingia seu cérebro quando conseguiu chegar à escada. Faltando ainda vários degraus para o piso térreo, suas pernas vacilaram, fazendo-no rolar escada abaixo. O sangue escorreu do supercílio aberto, ameaçando cegar Martih, mas eram os reflexos bem-treinados do agente que o guiava naquele momento. Com um olho só, enxergou o velho cientista estático de pé atrás do balcão da recepção e os tentáculos de luz prateada tentando alcançá-lo. Atirou várias vezes na direção do monitor sobre o balcão – fonte daquelas coisas horrendas –, mas o sangue no olho esquerdo prejudicou sua mira. Com gritos quase inumanos, que eram abafados pelo zumbido agudo dos autofalantes, Martih cambaleou até o Dr. Armstrong e agarrou-o pelo colarinho. Com os violentos sacolejos, o velho reagiu e ambos se ampararam, quase se arrastando até a saída. Os tentáculos prateados se alongaram na mesma direção, mas alcançaram apenas a pick-up, cujo tanque de combustível explodiu, lançando labaredas para todos os lados. Após permanecerem alguns minutos deitados no chão de concreto, os homens se levantaram e suspiraram de alívio. Na confusão, Martih acabou se esquecendo do carro de Gabriel, que o havia levado até ali e continuava estacionado na vaga, um pouco mais além. Ambos percorreram a pé o quilometro até a portaria do complexo, apenas para descobrirem que o guarda estava ensangüentado e desarticulado, como seus colegas do prédio. Antes de morrer, o pobre diabo conseguira derrubar o monitor daquele terminal, mas ainda assim, não conseguira escapar. O mais inusitado é que estava com as calças arriadas e o pênis pra fora, parcialmente carbonizado. Num bloco de anotações sobre a mesa havia um desenho tosco de mulher, feito com esferográfica azul, e, logo abaixo, uma palavra muitas vezes rabiscada, que poderia ou não ser um nome: Mynd. Todo o sistema de comunicação da guarita estava carbonizado e o celular de Martih também não estava funcionando. John Armstrong não possuía celular, afinal, o que um recluso como ele menos apreciava era ser localizado. Só lhes restava caminhar, ao menos até conseguirem uma carona.
XIV Martih e o Doutor chegaram à entrada de Monte Azul com os primeiros raios da aurora. Embora tivessem conseguido uma carona nos últimos três quilômetros, haviam feito a maior parte do percurso a pé. O agente sentia dores por todo o corpo, mas era Armstrong o mais exausto entre os dois. Do posto de gasolina, à entrada, Martih ligou para o QG da Polícia Federal, na capital mineira. Segundo seu colega, Julio – o Bocão –, que atendeu ao telefone, desde a noite anterior o QG estava abarrotado de agentes das mais variadas nacionalidades do mundo. Resumindo rapidamente os últimos acontecimentos, Martih obteve a garantia de que sua absurda história havia sido bem entendida. Quando estava num táxi com Armstrong, a caminho da residência do falecido Gabriel, sabia que dois helicópteros com cerca de uma dúzia de agentes bem treinados, alçavam vôo naquele momento, rumo ao interior do estado, mais especificamente a Monte Azul. Meia hora antes das sete, horário de começo do expediente no complexo laboratorial da Brand & Clark, esse já estava apinhado de funcionários. Os cadáveres dos guardas já haviam sido encontrados e a polícia local acionada. Três viaturas chegaram rapidamente e – sendo de praxe – o delegado de Monte Azul mandou isolar o local, a fim de esperarem a chegada dos agentes forenses da Polícia Federal, que, segundo foi informado ao telefone, já haviam sido comunicados e estavam a caminho. Só então adentrou o prédio semi-destruído e subiu as escadas para o pavimento superior, onde encontrou mais dois mortos. Como abutres farejando carniça, a van de reportagem da estação de tevê local chegou logo após a policia e, ávidos por exclusividade, começaram a transmitir ao vivo da portaria da Brand & Clark, onde o guarda noturno, coberto de sangue ainda fresco e semi-chamuscado, permanecia de calças arriadas, sob uma capa de chuva amarela. Não podiam acreditar em tanta sorte: dois furos de reportagem em apenas dois dias! Todas as transmissões de tevê, assim como rádios e outros meios de informação eram diariamente monitorados por Karah, de forma que a poderosa máquina, ao detectar a reportagem, isolou-a e substituiu por uma gravação de semanas antes, sobre a devastação das lavouras de café da região pela geada. Eram tais imagens que eram vistas no interior da casa. CONTINUE LENDO: EVOLUÇÃO MACABRA PARTE XV
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