| EVOLUÇÃO MACABRA |
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V No final daqueles exames específicos, o rapaz pôde compreender o que verdadeiramente lhe acontecia mais do que os dois cientistas juntos. Estava se transformando... evoluindo..., realmente já tinha deixado o estágio evolutivo do simplório homo sapien. Na cadeia evolutiva, estava para os humanos como esses estavam para os macacos. Concordara com Gabriel em não contar nada a Joanna, ao menos por enquanto. Era de seu próprio interesse não ter uma mãe batendo histérica à porta do seu quarto, atrapalhando, interrompendo sua evolução e seus experimentos. Ele não sabia até quando poderia suportar aqueles humanos idiotas, que diziam lhe amar. Fosse o que fosse o tal amor, não estava de acordo com a lógica pela qual vivia, portanto, não lhe interessava. Contudo, tinha que ser paciente, ao menos até seu corpo poder se abastar apenas de energia; precisaria daqueles dois humanos para propiciar a matéria orgânica que o alimentava. Seu crânio crescia e logo ele pareceria uma aberração aos leigos olhos humanos. Jamais qualquer garota se aproximaria dele – pensou sorridente, enquanto observava através da janela da pick-up as árvores passarem velozmente para trás. Não importava. Não queria ao seu lado nenhuma macaca, não a suportaria. Tinha Karah. Criara sua própria amante, que não possuía escárnio, não o deixaria jamais e iria evoluir junto com ele, bastando fazer-lhe os up-grade’s necessários.
VI Os dias foram passando e Carlos continuava cada vez mais compenetrado nos seus experimentos. A voluptuosa imagem holográfica de Karah era sua companhia diária – a única que permitia – e os autofalantes do computador vibravam constantemente com a voz metálica da sua musa e companheira. Ele poderia configurar a voz para um tom feminino, doce, delicado... mas, para quê? Sua nova postura lógica só permitia o prático, nada mais além disso. E, no mais, gostava daquele som metálico. À sua revelia o programa havia copiado para si a voz do lorde negro “Darth Vader”, de “Star Wars”... e ele realmente havia gostado. Seu conceito de beleza estava muito além do humano, mas se acostumara à aparência de Karah, criada anteriormente à sua evolução. Uma Afrodite com voz de robô. O crânio de Carlos continuava se alongando para cima e para trás, sinal claro de que seu cérebro continuava em expansão. Assim que percebeu suas novas mudanças externas, tratou de abandonar a escola – e a companhia dos macacos idiotas –, pois logo viriam as indagações óbvias, que ele não estava disposto a responder. Sua aparência já não mais poderia passar por normal, sendo assim, se refugiou de vez em seu quarto e de lá só saia nas altas madrugadas – quando as ruas da pequena cidade estavam desertas –, para exercitar os músculos franzinos e propiciar ar puro aos pulmões. Não podia facilitar, pois pelo que conhecia dos seres humanos, seriam bem capazes de trancafiá-lo numa jaula, apresentá-lo num Circo dos Horrores ou dissecá-lo num laboratório. Há algum tempo Joanna viajara para a Europa, onde passaria seis meses fazendo pesquisas para mais um romance. Brilhante como era, com certeza seu próximo trabalho seria um best-seller, como foram todos os anteriores. Gabriel passava a maior parte do tempo no laboratório da Companhia, imerso nas suas próprias pesquisas, assim, Carlos tinha liberdade de locomoção na casa, inclusive para receber as inúmeras encomendas sem que o pai soubesse ou sequer desconfiasse. Usava a Grande Rede Mundial de Computadores para comprar tudo de que precisava. Todo o espaçoso quarto do rapaz, no andar superior, estava abarrotado de aparelhos e a maioria era extensão da sua poderosa máquina. Para montá-la e dar início a outros projetos, precisou de muito dinheiro, mas optou por não mais pedir a seus pais, a fim de não deixá-los desconfiados. Mas isso não constituiu qualquer problema, bastou-lhe burlar a segurança e acessar alguns bancos via Internet e transferir pequenas quantias de cada cliente – tão pequenas que esses nem notaram –, até conseguir o montante que precisava. Em seguida, para que a segurança dos bancos não detectassem a operação, infectou a rede com um vírus – recém criado por ele – que detonou os sistemas. Quando, para uma coisa ou outra, Carlos precisava de dinheiro, bastava repetir esse processo e tudo era resolvido. Mesmo quando o taciturno rapaz descansava, ou se exercitava, o avançadíssimo software denominado Karah trabalhava constantemente, fazendo pesquisas e cálculos por toda a Internet, seguindo sua pré-programação. Não havia senha ou sistema de segurança instransponível para o programa. Se Carlos resolvesse leiloar Karah para as grandes potências, ficaria milionário. Foi numa de suas ávidas pesquisas que Karah invadiu a Brand & Clark Corp. Ao fazer uma varredura geral no sistema de computadores da Corporação, a musa virtual chegou ao secretíssimo projeto em que o pai de Carlos trabalhava: uma versão modificada e muitas vezes melhorada do raríssimo Nhy-Nithoy.
VII Gabriel estranhou muito quando o filho começou a demonstrar um interesse fora do habitual e logo se prontificou a ajudá-lo nas pesquisas da substância Nhy-Nithoy. Já fazia vários anos que concluíra seu doutorado na Alemanha, se tornando um conceituado físico nuclear, e sua tese fora exatamente sobre aquele elemento nocivo e as possíveis mutações que podia causar ao meio-ambiente, principalmente aos seres vivos. Mas, como, em nome dos anjos, seu filho ficara sabendo das modificações e aperfeiçoamento do Nhy-Nithoy? Concluindo que não era possível ludibriar Carlos, e muito menos dissuadi-lo, Gabriel concordou em aceitar a ajuda do filho superdotado. Assim, ampliou o laboratório que mantinha no próprio porão e transportou secretamente alguns aparelhos e materiais da Brand & Clark. Não estava roubando – sua criação rígida não permitia que ele fizesse algo assim –, seu contrato com a Corporação permitia que ele levasse algum trabalho para casa. Talvez não permitisse que ele levasse tudo aquilo, mas o fazia a noite, de forma gradativa, e ninguém precisava ficar sabendo. Pensava que o filho enfim tinha se aproximado da família – ou ao menos dele, uma vez que a mãe estava na Europa –, mal sabia, porém, que o objetivo de Carlos, ao auxiliá-lo nas pesquisas, era tomar posse de todo conhecimento já acumulado sobre o Nhy-Nithoy, a fim de usá-lo para seu próprio interesse. Sua intenção era a de criar uma nova era, com novos seres, e essa pesquisa viria em prol desse intuito. Era aquilo que movia sua existência: uma oportunidade real de usar todo seu intelecto. Foi essa a mola propulsora que o fez absorver exaustivamente tudo que pudesse sobre engenharia genética e robótica. Carlos pretendia usar o Nhy-Nithoy para causar mutações controladas em outros humanos, eliminando as rejeições a peças metálicas e órgãos sintéticos, criando cyborgues aperfeiçoados e resistentes. Para tanto, já vinha estudando o perfil genético de “cobaias” que recrutara em alguns sites dark da Internet e seguiam fielmente sua filosofia de uma vida superior. Para esses fanáticos, Carlos era um messias... Era o Messias! O rapaz, de ego assoberbado, acreditava que poderia criar uma droga a partir do Nithoy que, injetada dia após dia, gradativamente forçaria ainda mais o desenvolvimento do seu cérebro ao ponto em que ele poderia desenvolver mutações instantâneas e controláveis. Assim, uma vez que já controlava parcialmente certos tipos de matéria, poderia se transformar no que quisesse e, principalmente, retardar o próprio envelhecimento. Inteligente como se tornara, sabia que toda matéria perecia, portanto era impossível para seu corpo alcançar a imortalidade. Mas, em pouco tempo encontraria a fórmula da eternidade transplantando seu cérebro e toda sua essência para um corpo robótico. Teoricamente, a única dificuldade restante era a substituição da medula espinhal, que era terrivelmente complexa, porém, a tecnologia das células-tronco mesclada ao poder de mutação do Nithoy resolveria o problema. O corpo cyborg que idealizava seria forte e resistente, assim seu cérebro poderia resistir a qualquer agressão externa. E quando sua massa encefálica finalmente começasse a deteriorar, seria substituída por um software ainda mais poderoso que Karah. Dominando a tecnologia da engenharia genética, da robótica, e o poder de mutação da substância que, em seu estado bruto, fora utilizada secretamente como arma pela Alemanha nazista, logo tornaria possível o nascimento de uma nova raça... seus filhos... seus e de Karah. Estava obcecado com a idéia de ser capaz de “dar a vida” a outro ser e já não mais se importava com seus pais biológicos. O importante era aproveitar ao máximo o que eles pudessem lhe oferecer, enquanto não era capaz de se auto-sustentar sem a interferência daqueles insignificantes seres primitivos.
VIII O avançadíssimo software chamado Karah, tinha adquirido autonomia e realizava ações à revelia de seu criador, paralelamente aos comandos recebidos. O imenso poder intelectual de Carlos tinha delegado a Karah o que chamam de Inteligência Artificial. O que a fez desenvolver capacidades múltiplas, que iam além de qualquer programa já idealizado pelo homem. Entre essas capacidades, a de se autodefender, se acaso fosse ameaçada. Sua imagem, embora belíssima, não era nada mais que um mero holograma aperfeiçoado, um fantasma digital, e, portanto, era capaz de encantar qualquer macho da espécie humana – e aquilo lhe era de grande valias às vezes –, mas não representava qualquer perigo. Não obstante, com sua parte física era diferente, Karah havia criado uma potente rede elétrica que abrangia todo o quarto, onde seus inúmeros hardwares estavam montados e conectados, e, se de sua vontade, qualquer ser que ali tocasse, seria imediatamente eletrocutado. Contudo, o pior da supermáquina – que nem o próprio Carlos desconfiava –, era o imenso poder virtual que lhe fora delegado – e que ela mesma tratava de expandir a cada dia. Tal poder lhe permitia burlar senhas e avançados sistemas de segurança, para ter acesso a satélites com as mais variadas funções, que circulavam a órbita de todo o planeta. Ainda pior, certamente, era seu acesso secreto a programas de defesa governamentais: alguns deles possuidores de mísseis com ogivas nucleares e outros tipos de armas extremamente nocivas. Não era sua intenção destruir a humanidade, pois, de certa forma, precisava daquelas patéticas criaturas subdesenvolvidas... ao menos por enquanto. Carlos, a seu modo – e mesmo sem compreender tal sentimento –, amava Karah, pois ela era o único ser no mundo capaz de compreender suas razões e aprovar suas intenções. Os seres humanos eram ilógicos, por isso temiam a evolução e tudo aquilo que não conheciam ou era diferente. Estavam presos a um padrão de beleza primitivo e, por isso, ele mesmo – cuja aparência física já havia mudado drasticamente –, seria considerado um monstro, se descoberto. Porém, para a lógica eletrônica de Karah, seu cérebro era o que contava, e, portanto, ele era belíssimo. No seu excesso de confiança, o que nem desconfiava era que sua criação possuía planos próprios, distintos dos dele. E, enquanto Carlos permanecesse na ignorância, sonhando com seus “filhos” perfeitos, serviria aos propósitos dela, quando não tivesse mais utilidade, seria deletado como qualquer vírus virtual.
IV Dr. Armstrong sentira-se ameaçado em sua ultima visita a Carlos. O adolescente se mostrou muito estranho e violento, não mais querendo fazer nenhum tipo de exame. Na tentativa de colher amostra de seu sangue, Carlos arremessou contra o médico, sem mesmo sair do lugar, uma enorme estante, quase o ferindo mortalmente. Durante um instante Carlos permaneceu para lá e para cá, no limiar da sanidade, parecendo um bicho... Depois, com um grito profundo e angustiado, fez rachar a parede que dividia seus aposentos de um dos quantos de hóspedes. Gabriel só teve tempo de arrastar seu grande amigo para fora da casa. A salvos na rua, observaram assustados, o vulto de Carlos, como se estivesse em chamas, e um longo crepitar, como se todo o barulho à volta tivesse se transformado em estática. Dr. Amstrong, mortalmente pálido de medo, conversou longamente sobre o assunto com Gabriel. Era evidente que o filho do seu único amigo não era mais humano, mas, embora fosse óbvio, como poderia dizer isso a ele? Os dois amigos entraram num consenso e decidiram que o norte-americano não mais se aproximaria do rapaz, mas continuaria estudando o caso. Ele já possuía vasto material e dados do mutante e se precisasse de mais poderia adquirir com o próprio Gabriel, de forma que continuaria fazendo seu trabalho a uma distância segura. CONTINUE LENDO: EVOLUÇÃO MACABRA PARTE X
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