Apresentação

      EVOLUÇÃO MACABRA
 

Participação: Elisbeth Vasques

Foto obtida no Flickr através de uma licença Creative Commons, cujo autor é dpadua

 

I

Carlos Augustus Eberli era um rapaz um tanto esquisito. Vivia isolado e, em toda a sua vida, nunca se interessara em brincar com os garotos da sua idade. Muito pelo contrário, ao passar por eles, sequer notava suas tentativas de chamar-lhe a atenção. Mesmo aos próprios pais, sempre dispensara pouco zelo.

Aos 4 anos já demonstrava precocidade, aos 6 estava muito à frente dos colegas de idade e aos 15 era considerado um gênio da informática. Inevitavelmente recebia apelidos e gozações dos colegas, o que, em parte foi responsável pelo crescimento da sua já acentuada natureza taciturna e tendência ao isolamento. Passava horas na frente do computador, desenvolvendo e aperfeiçoando programas. Os pais de Carlos se preocupavam com sua saúde e bem-estar, afinal, era apenas um adolescente e nunca se interessava por assuntos da sua idade. Era filho único, não tinha amigos ou namorada e o diálogo em casa era restrito ao necessário.

No segundo mês de gravidez, sua mãe, Joanna, testemunhou um ato ilícito, onde o assaltante – um adolescente de pouco mais ou menos dezesseis anos – foi morto pela polícia. Um tanto abalada, naquela mesma noite ela contou o incidente ao marido e ambos tomaram uma importante decisão. E assim, quando Carlos nasceu, a família se mudou para a interiorana Monte Azul, onde poderiam criá-lo dentro da moral e os bons costumes, longe do perigo latente da cidade grande.

A pequena cidade era tranqüila e muito arborizada e aos domingos a vizinhança costumava se reunir e fazer churrascos nos quintais uns dos outros. Os convites não eram formais, mas feitos por sobre as cercas baixas de tábuas pintadas de branco – ou de arbustos –, que na verdade não cercavam, mas apenas delimitavam os espaços territoriais. Os garotos aproveitavam esses momentos de confraternizações dos pais para brincar e exibirem uns aos outros seus brinquedos e suas bicicletas novas e vez ou outra havia alguma discussão à cerca de quem possuía o videogame mais moderno. Exceto Carlos.

Joanna sempre dizia ao marido que com o crescimento o menino se tornaria mais sociável, mas veio a adolescência e nada mudou. A maioria dos garotos mal podia esperar os finais de semana para se livrar do colégio e poder “azarar” as adolescentes, nos divertidos bailes de garagem ou nos constantes eventos propiciados pelas bandas de rock locais. Carlos, não obstante, continuava arredio, mantia sua postura taciturna e preferia o isolamento do seu quarto e a companhia dos livros e seu precioso microcomputador. À sua máquina sim, ele dedicava atenção quase absoluta. Era de última geração e ele fazia upgrade com freqüência, no intuito de sempre mantê-la atualizada. Não por vaidade, pois em absoluto Carlos era dado a tais idiotices, mas sim porque a máquina precisava ser das melhores para realizar as tarefas para as quais era programada.

O rapaz nascera numa família de classe médio-alta, que logo teve o patrimônio aumentado, graças, principalmente, ao talento de sua mãe para a arte da escrita. Joanna publicara seu primeiro romance logo após o casamento e, na época, sequer sonhava que seu livro se tornaria o best-seller mais vendido daquele ano. “Migrando Com Os Cisnes” foi posteriormente traduzido para mais seis idiomas, repetindo o sucesso na Europa, Américas e outros. Daí à adaptação do romance para o cinema foi uma questão de pouquíssimo tempo. E não foi diferente com os trabalhos posteriores, rendendo a internacional Joanna Eberli ainda mais prestígio e multiplicando inúmeras vezes sua conta bancária.

O pai, Gabriel, era físico nuclear, com doutorado em bioquímica. Era um idealista, para o qual o dinheiro pouco – ou quase nada – importava. A paixão pela pesquisa era a mola-mestra que movia sua existência. Tal dedicação exagerada às vezes se tornava uma rival poderosa, que chegava a irritar sua mãe, mas ela acabava por relevar, uma vez que amava muito o marido. Nos tempos de universidade, ela se apaixonara sobretudo pela grande capacidade que Gabriel possuía de sonhar com um futuro melhor para o planeta e seus habitantes. O rendimento financeiro do pai não era tão substancial quanto o da mãe, mas, ainda assim, estava longe de jogar no time dos mal-remunerados. Assim, dinheiro nunca constituiu qualquer problema para Carlos. Quando precisava de algo, bastava comunicar ao pai ou à mãe e esses providenciavam de imediato. Não tinha, portanto, o menor problema para manter seu companheiro eletrônico top de linha e tampouco para conseguir seus preciosos livros, por mais estranhos e raros que fossem.

Carlos vivia num mundo completamente irreal para os padrões da maioria, mas real e palpável para ele. Gostassem ou não, não interessava, aquele era o seu mundo. Passava horas e horas na companhia exclusiva da sua máquina e simplesmente adorava aquilo. Pouco importava os comentários dos colegas que – para seu deleite – já não faziam o menor esforço para obterem sua amizade. O computador era sua vida.

 

II

Aquele dia, 05 de julho, jamais será esquecido. Foi quando seu “dom” se manifestou pela primeira vez. Jogava xadrez – o adversário: um programa avançado desenvolvido por ele mesmo aos 13 anos – e estava concentrado, quando seus olhos começaram a arder e a cabeça a zumbir ininterruptamente. O som era terrivelmente agudo, obrigando-no a levar as mãos às têmporas. Começou a se debater e balançar para um lado e outro sobre a cadeira, na tentativa de fazer o zumbido parar. Mal conseguia abrir os olhos, e, quando o fazia, podia ver as peças do jogo se movendo sozinhas sobre o tabuleiro digital: o peão preto desenvolveu braços e socava ininterruptamente o rosto do rei branco; a rainha branca tirava peça por peça da sua vasta vestimenta – rasgando-as violentamente –, num strip-tease convulsivo; os cavalos de ambas as cores desenvolveram pernas e galopavam de um lado para o outro; as torres cresceram desproporcionalmente e os topos ultrapassavam o limite superior da tela do monitor de 21 polegadas. Dos autofalantes da máquina brotava estática e um aviso se repetia ininterruptamente: “Erro de programa... erro de programa... erro de programa...”. Quando o monitor finalmente explodiu em milhares de minúsculos fragmentos, seu rosto – que estava a uma distância inferior a um metro – ficaria retalhado, mas algo o protegeu: uma espécie de barreira invisível se ergueu ao seu redor e nenhum dos fragmentos atingiu sua pele. Contudo, Carlos não testemunhou esse último evento, pois havia desmaiado.

Atraído pelo barulho surdo da explosão, Gabriel – que trabalhava em casa naquela semana – subiu as escadas correndo e em poucos segundos chegou ao quarto do filho. Esse estava sem sentidos sobre a cadeira: os braços pendidos ao lado do corpo e a cabeça caída sobre o peito. Uma fumaça espessa pairava no quarto – cuja janela estava fechada – e um cheiro de plástico queimado inundava terrivelmente as narinas. Gabriel, ao se aproximar do filho, notou o fenômeno: as faíscas que saltitavam dos destroços do monitor rumo aos cabelos de Carlos, não chegavam a atingi-los. Crepitavam ainda mais contra a barreira invisível e se esparramavam pelo carpete, queimando e produzindo mais fumaça. Gabriel, sem raciocinar, tentou levantar a cabeça do filho, porém levou um potente choque elétrico que o arremessou há quase dois metros, contra uma das estantes de livros. Meio atordoado, gritou o nome de Carlos a plenos pulmões uma, duas, três vezes... nada. Novamente sem pensar na própria segurança, já se levantava para nova investida, quando ouviu o gemido do filho e esse começou a sacudir a cabeça. Meio desnorteado, o rapaz perguntou ao pai o que tinha acontecido, mas logo suas próprias lembranças responderam à sua indagação. Dois filetes de sangue escorriam do seu nariz, mas não estava ferido, muito pelo contrário, se sentia muitíssimo bem.

Depois de testemunhar o fato, Gabriel ficou muito nervoso, pensando numa explicação racional para o fenômeno. Talvez Carlos tivesse ido ao seu laboratório e de alguma forma se contaminado com o material que ele estava pesquisando. Mas, não podia ser, o material de pesquisa ficava restrito ao seu laboratório na Companhia, jamais havia levado qualquer amostra para casa. Ainda que seu filho tivesse ido ao Centro de Pesquisas, lhe seria impossível acessar a substância, que era fortemente resguardada por um sistema de segurança que respondia apenas à leitura da suas próprias retinas. No mais, o Nhy-Nithoy que ele estava pesquisando estava em estado primário e qualquer contato direto seria fatal. Se houvesse sido contaminado, Carlos já estaria morto.

Após o incidente, Carlos foi submetido a exames no Centro de Pesquisas Médicas da Brand & Clark Corporacion. O colega de Gabriel constatou que alguns órgãos de Carlos haviam sido seriamente danificados e continuavam em pleno processo de deterioração. Sobretudo o fígado, que estava sendo destruído por uma carga viral desconhecida. A deterioração celular se esparramava lentamente pelos outros órgãos, mas o fígado seria totalmente desintegrado dentro de no máximo 24 horas.

Enquanto os pesquisadores, sobretudo Gabriel e seu colega e amigo John Armstrong, corriam contra o tempo, Carlos permanecera isolado num aposento esterilizado, de onde nenhuma partícula – por minúscula que fosse – entrava ou saía. Os pêlos de todo o corpo do rapaz se desprenderam, como palha numa superfície lisa e lesões purulentas eclodiram por toda a pele, com perda de sensibilidade térmica e tátil. Entretanto, Carlos permanecia tranqüilo, numa serenidade desconcertante. Nas poucas horas em que permanecia acordado, afirmava apenas que estava no auge do bem-estar e evitava maiores detalhes daquele ou de qualquer outro assunto.

Não restava nada a Carlos, exceto esperar a morte. Ao menos era o que pensavam os exaustos cientistas, que conquanto tivessem se esforçado na busca da cura para a terrível moléstia, não haviam obtido qualquer sucesso. Gabriel estava desesperado com a iminência de perder seu único filho. Aquilo não seria o fim apenas para ele, mas também para Joanna. Na sua concepção, qualquer um dos três não podia viver sem os outros dois. Embora o desespero atormentasse, intrigava-lhe o fato de não terem detectado o meio de contágio e o fato do vírus ser nocivo apenas ao sistema celular de Carlos, como se tivesse sido projetado especificamente para o seu DNA.

Gabriel passou a noite em claro e, na manhã seguinte, quando obteve permissão do chefe da equipe médica para penetrar na redoma protetora onde seu filho era mantido isolado, uma idéia iluminava sua mente exausta. Contudo, ao pousar os olhos no adolescente, não pôde acreditar no que via: esse estava de pé ao lado da cama, arrancando com vigor os eletrodos que prendiam fios ao seu corpo. Não havia qualquer cicatriz deixada pelas ulcerações e a aparência de Carlos nunca estivera melhor. Exames posteriores mostraram que milagrosamente não havia sinal de qualquer partícula viral e os órgãos estavam regenerados e em pleno funcionamento. O espanto foi geral.

Não tendo mais o que fazer no centro médico, Carlos foi liberado naquela tarde, com o compromisso de retornar diariamente na próxima semana para novos exames e colaborar com as pesquisas. O caso foi devidamente abafado, por se tratar do filho de um alto funcionário da toda-poderosa Brand & Clarck Corporacion.

 

III

A princípio não se soube como e nem por onde ela conseguiu entrar no quarto de Carlos sem ser vista por nenhum empregado da casa. Mas ela estava ali, à sua frente. Uma mulher lindíssima, com um vestuário prata colado ao corpo excepcionalmente perfeito, cabelos ruivos e brilhantes olhos azuis. 

Totalmente boquiaberto, o rapaz permaneceu estático, observando a estonteante presença feminina sem ter certeza se podia ou não acreditar nos próprios olhos. Era uma verdadeira deusa e por mais de uma vez ele duvidou do fato de estar acordado. Parecia ter sido transportado para uma outra dimensão, onde a perfeição era uma regra absoluta. A moça parecia ser capaz de ler seus pensamentos, pois disse numa voz metálica, totalmente desproporcional à sua beleza: “Não se preocupe, você está em casa e eu estou na sua dimensão. Sou Karah... a sua Karah... Você me criou”.

“Então deu certo”, Carlos balbuciou de olhos arregalados. Esperava terminar o Programa Karah somente naquela noite, mas, ainda não sabia como, o mesmo se autocompletara horas antes do tempo previsto. Os dados inseridos eram de uma morena polinésia, mas, também ainda não sabia o porque, o programa assumira aquela aparência ruiva, que, aliás, era maravilhosa e superara suas expectativas. Sua primeira criação. Viu-se refletido naqueles olhos azuis, como se fosse um deus. “Carlos, o criador!”, balbuciou num tom enigmático e achou que a frase soava bem... muito bem. A emoção foi tamanha que o adolescente começou a ter uma ereção.

 

IV

Embora muito feliz pela recuperação do filho, Gabriel estava extremamente preocupado. Intrigava-lhe, sobretudo, o fato de o rapaz ter sido capaz de se autocurar, e em tão pouco tempo. As lacerações purulentas em sua pele haviam cicatrizado milagrosamente, sem deixar qualquer sinal de que um dia estiveram ali. Finalmente ele conseguiu convencer o filho a fazer alguns exames extras, além dos que o rapaz já vinha se submetendo. Levou-o, portanto, ao laboratório onde trabalhava, pois fosse o que fosse que estivesse acontecendo, não era comum e não podia de forma alguma chegar a público. Já desconfiava de algo, mas era demasiadamente cedo para qualquer conjetura.

Ao chegarem às instalações da subsidiária brasileira da Brand & Clack Corp a gigantesca multinacional canadense, especializada em pesquisa e desenvolvimento químico e biológico , onde Gabriel trabalhava há muitos anos, foram direto ao arborizado estacionamento dos laboratórios de pesquisas genéticas. O cientista deixou o filho aos cuidados do Dr. Armstrong, seu colega norte-americano – cujo nome era uma lenda entre os geneticistas –, que há anos vivia somente para o trabalho.

A bateria de exames levou cerca de 12 horas e Gabriel teve que arrumar um engodo bastante convincente, para explicar a Joanna a ausência do filho – que exceto para o colégio, quase nunca saia de casa. Não queria, de forma alguma, preocupar a esposa desnecessariamente, por isso havia decidido contar tudo a ela apenas quando tivesse uma explicação plausível e pudesse garantir que Carlos estava realmente bem.

O Dr. Armstrong realizou várias series de exames em Carlos, utilizando aparelhos comuns à medicina mundial e outros nem tanto, desenvolvido por ele mesmo, naqueles longos anos de reclusão consentida. Desde o início ficara fascinado com a inteligência do rapaz, pois esse – que ainda cursava o 2º grau – questionava sobre termos técnicos que em absoluto poderiam ser de conhecimento de um adolescente.

Terminados os exames, se confirmou o que Gabriel secretamente suspeitava: a exposição acidental a certos tipos de isótopos, anos antes do casamento, nada causara às suas próprias células, mas alterara bruscamente o DNA do seu rebento, lhe conferindo habilidades até então desconhecidas. Ele só não entendia inteiramente por que os “dons” do rapaz estavam se manifestando somente depois de tantos anos. Contudo, o Dr. Armstrong, que era sem dúvida uma das maiores autoridades do mundo em genética, explicou que o fenômeno estava ligado à puberdade do rapaz e, alguns hormônios, sobretudo a testosterona, constituíram o catalisador que acionou o processo. Em termos leigos, as alterações dos genes estavam possibilitando o crescimento anormal de determinadas áreas do cérebro e, portanto, conferindo ao rapaz poderes extra-sensoriais, e, segundo o médico, até mesmo um pequeno mas fascinante domínio sobre alguns tipos de matéria.

Desde criança, Carlos dava mostras de ser superdotado; maior motivo pelo qual preferia o isolamento às brincadeiras tolas dos seus colegas, cuja idiotice sempre o irritava. Freqüentava a mesma sala de aulas dos colegas da sua idade, mas se divertia secretamente, por possuir conhecimentos muito além dos próprios professores. Para ele, os “mestres” eram primitivos como chimpanzés. E através dos anos, aquele fora seu segredo e sua principal diversão externa. Sim, era muito divertido bancar o aprendiz de chimpanzés. 

Segundo o Dr. Armstrong, até o presente momento, tudo que acontecera a Carlos fora benéfico, inclusive o incrível fator de cura que erradicou totalmente a presença do vírus desconhecido, que há menos de uma semana contaminava todo seu corpo. Mas o que ele custava mais a crer, era a constatação de que tal vírus foi desenvolvido pelo próprio organismo do rapaz, com a função de acionar o desenvolvimento do seu fator de cura, tal qual uma vacina aciona a produção de anticorpos.

Tudo isso acontecia à revelia da vontade de Carlos, como se cada órgão do rapaz possuísse vontade e inteligência próprias. Era ainda quase imperceptível, mas o crânio havia se metamorfoseado: a estrutura óssea se alongara para o alto e para trás, possibilitando espaço interno para acomodar as novas dimensões do cérebro. E, ao que tudo indicava, aquele processo não pararia por ali. O que o geneticista, por mais genial que fosse, não podia prever era quando o rapaz passaria do estado de gênio para o de monstro... mas, conquanto a idéia fosse abominável, a coisa aconteceria, era apenas uma questão de tempo.

Devido à inteligência superior de Carlos, nem seu pai nem o colega norte-americano desse puderam lhe esconder nada. No inicio até tentaram, mas logo notaram o quão era vão tal esforço, então explicaram tudo ao rapaz. Esse ouvia impassível, nada o perturbava, exceto quando o pai ou Armstrong errava em algo e ele mesmo os corrigia, deixando ambos ainda mais atônitos.

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